Para que eu possa dormir

Eu me esqueci de contar quantos eu fui neste ano. Me convenceram de que eu tenho boa memória mas esqueci todos eles. Outro dia uma amiga apontou para os rastros que deixo por onde passo, marinheiro, e depois olhando fotos minhas — ou de mim — cheguei a acreditar que eu não existia. Apaguei o Instagram para não mais me ver e é bem engraçado como o ato de apagar o Instagram nos anos 2000 é significativo. O Instagram pode ser importante, como cantar o hino nacional, e eu sou inteligente o suficiente para escrever como um homem dos anos 2000. Reinstalei o aplicativo ainda sem saber quem ou se eu era, tentando crer que fosse possível viver sem saber.

Hoje o fantasma me fez uma visita, e disse que só iria caso eu escrevesse este texto. Sorte dele e sorte minha. Vou trapacear ao máximo e me esconder atrás das palavras — eu sou o ditador de um jogo de pôker.

Em fim

Eu nunca vou me matar ponto mas agora já sei que tropeçar em estranhos desejos suicidas (desdesejos) é uma das delícias de viver. É que a mente seja talvez o algo mais próximo da liberdade, ou da ideia de liberdade. É preciso deixar que nela surja até a sua própria negação. Tem filmes que falam disso melhor que eu. A Maçã no Escuro me foi um livro fundamental.

CARAMBA AMANHÃ ACORDO CEDO PRO PILATES

É duro ser tão só num tudo de tanto amor. Inventei pra mim um alguém a serviço do riso de todos. Me dei e sei me dar. Mas agora tenho uma geladeira — quebrada posto que não é gelada; viva posto que é quente — de amores nas costas e tenho muito medo de não suportar. No meu aniversário chorei por sentir não merecer, mesmo sabendo-me merecedor. Eu preciso ter coragem de assumir o homem que me fiz, mesmo em nau desconhecida. É preciso ter coragem para que o amor não se torne vão. Se você confiou seu amor a mim eu faço lucro. Pequeno Príncipe não é um mau livro.

Agradecer os amigos que fiz
E que mantém a coragem de gostar de mim, apesar de mim

Agora eu, que tanto sou do mar, sinto precisar de um cais. Fui e fui, fiel à seta única do destino, por amar mais os caminhos que as casas, “Ir é melhor que chegar”: descobri em São Paulo. Eu naveguei, eu naveguei e nunca ninguém me alcançou. Eu e o mar: e todos os oceanos eram um só. Mudo de nome, mudo de roupa, mudo de país. Por tanto ser eu, eu pude ser vários. Com algum aperto no coração sinto que é hora de experimentar ser um. Pisar na terra. Chorar na terra. Todo o organismo quer se conservar: eu agora quero ser firme, ainda que molhado. Esse é todo o tempo do meu amor.

O pescador tem dois amor
Um bem na terra 
Um bem no mar

Quero esse alguém que me dará a minha sombra para eu ser inteiro. Eu quero tudo por inteiro. A esse alguém eu levo toda a disformidade do mar. Trago muitos segredos, a contar. No cru é isso, ser suporte para o outro ser mais, e eu acredito num claro futuro. Talvez eu queira voltar para o imenso das ondas, mas se tudo tem fim, o quanto antes é preciso dizer sim.

bonitinho

Minha alegria é bonita.

O fantasma indo embora e o sono me pegando. Graças a Deus. Daqui a pouco acordo e estarei pronto para receber os carinhos. Será que acertei o tom? Eu queria um gostinho a mais de prosa telúrica, desse jeito meu é muito desconexo. Nem todo mundo sabe jogar pôker. Neste mundo há um risco de ser refém da liberdade.

Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas.

Não pense que estou me rendendo, não pense que estou desistindo.
Eu estou só começando.