Mais do que o salário
Quando as greves pedem mais
(Publicado no Jornal O TEMPO, Belo Horizonte, em 27 de maio de 2014)
Neste primeiro semestre de 2014, a cidade do Rio de Janeiro vem aguardando o início (ou a continuação) de greves de funcionários públicos de diversas categorias. Ao começar a retrospectiva pelo mês de março — “coincidindo” com o feriado de Carnaval -, os coletores de lixo cessaram a coleta por alguns dias. Ao longo do mês de maio, motoristas de ônibus deixaram os usuários sem transporte durante 24 horas, em dias alternados. Mais recentemente, foi a vez da Polícia Civil cruzar os braços durante um dia.
Diante desse cenário grevista, podemos encontrar pontos em comum entre os casos que nos levam a compreender parte do atual cenário político e social das realidades que configuram o país.
Em primeiro lugar, assinalamos o fato de os manifestantes serem funcionários públicos prestadores de serviços que são essenciais a todo o conjunto da população: saneamento básico, transporte e segurança pública. Assim, o impacto social afeta todos os habitantes do município, independente do momento em que a greve ocorre ou até mesmo da classe social ou renda dos cidadãos.
Em segundo lugar, os manifestantes não ocuparam diretamente as ruas, tal como ocorreu em junho de 2013. Nesse caso, optou-se por reuniões em assembleias sindicais (no caso dos policiais) ou por comparecer ao local de trabalho, mas sem dar início às atividades. A organização dos trabalhadores ainda preserva caráter de representatividade para propor e realizar as demandas coletivas de grupos específicos.
Uma terceira relação entre os casos está na pauta de reivindicações: melhores condições de trabalho e/ou reajuste salarial. A base de comparação está para com outros cargos exercidos na mesma corporação (como é o caso da demanda da Polícia Civil), ou aumento do salário-base da categoria (em média, cerca de 40% do atual).
Nesse diálogo, não é raro fazer-se comparação com os salários de outros tipos de servidores públicos, cuja discrepância para com a própria remuneração já demonstra que a população reflete sobre o assunto, ou ao menos reage a ele, exigindo os mesmos benefícios.
As exigências feitas pelos manifestantes e a experiência de não ter — ainda que momentaneamente — um serviço de necessidade básica nos levam a pensar em como se encontra a provisão dos serviços públicos, que são, ao mesmo tempo, garantias constitucionais e parte dos chamados “direitos sociais”. Em contínuo processo de modificação e internalização da distinta realidade existente entre o seu poder de compra e as condições de acesso e utilização do espaço público, a desigualdade no reconhecimento das diversas profissões em termos de remuneração e importância que essas assumem para a vida diária é indício de que, para os brasileiros, a qualidade de vida almejada difere da cesta de produtos atualmente ofertada.
Em outras palavras, o último ponto em comum entre as greves ocorridas até o momento está em exaltar o nível de estrangulamento em que se encontram os arranjos políticos entre o governo, as organizações trabalhistas e os cidadãos. Em ano de eleição, é hora de pôr em prática essas reflexões e definir o melhor projeto político para o futuro.
