O islamismo e o “modelo civilizatório” dos EUA
As formas de um debate que não se estabeleceu
(publicado no Jornal O TEMPO, Belo Horizonte, em 22 de setembro de 2012)
Distante da grande mídia nacional, a análise histórica dos eventos internacionais é ferramenta fundamental para se entender casos como o assassinato de quatro diplomatas norte-americanos na Líbia, ocorrido no dia 11 do corrente mês. Os Estados Unidos têm, neste que não é um caso isolado, uma resposta à sua tradicional defesa de um modo de vida baseado em valores ocidentais, como o mercado, a democracia e a sociedade civil.
Baseado nesses princípios, o “modelo civilizatório” norte-americano tem sido exportado a diversos países em momentos históricos recentes, com destaque para o período a partir do fim da Guerra Fria, marcado pelo processo de globalização da década de 1990. Na há dúvida de que os EUA foram preponderantes na imposição de tais valores ao antigo bloco soviético, na busca pela construção de uma “nova ordem mundial”.
O desafio a esse projeto de poder veio com os ataques terroristas de 11 de setembro. A partir de então, surgiu a necessidade de se impor tal “modelo” também aos países islâmicos, que pareciam imunes ao receituário norte-americano composto pelos típicos preceitos liberais, democráticos e culturais.
Dez anos depois, a “Primavera Árabe” representa mais um capítulo importante nessa história de tensas relações ente sociedade, Estado e religião. Com origens locais e ocorrendo em vários países árabes, violentos protestos populares foram capazes de produzir significativas políticas e sociais, principalmente no sentido de uma maior participação dos cidadãos nos processos decisórios; foram destituídos os antigos líderes opressores, e está em curso um profundo processo de reconstrução política.
A construção de maior liberdade civil tem sido acompanhada de perto pela comunidade internacional e continua sem conclusão nítida em países como a Síria e a Líbia.
A evolução histórica das últimas décadas, no que se refere à transição de governos e à instituição de novos padrões de qualidade democrática, deve servir de exemplo de que não é possível transporta modelos de governos para contextos regionais totalmente diferentes, e tampouco se fazem democracias da noite para o dia. Os interesses norte-americanos, que sempre acompanham as tentativas de implantação de seu “modelo civilizatório” no exterior, poderiam mesmo ser alcançados a partir de uma revisão profunda nas formas de intervenção adotadas.
Certamente, são cabíveis variações entre os pilares do modelo ocidental de Estado, que o tornariam aplicável efetivo para vários contextos políticos e sociais do mundo. Não se pode conceber que qualquer forma de orientação religiosa seja incongruente com as liberdades civis e políticas. Ao mesmo tempo, a resposta não deve vir pronta, importada e imposta desde o outro lado do mundo. As mortes de civis e diplomatas são, certamente, manifestações de um debate que ainda não se estabeleceu por completo, distorcido que se encontra por quase todos os seus participantes.