Sobre aquela parte
A luz estava apagada. Como gostávamos. Isso impedia as outras pessoas de entrarem e poderíamos seguir os nossos movimentos livres, sem ninguém em nosso caminho.
Era dezembro, como sempre era, mas, para as outras pessoas, estava quente. Para nós, experimentávamos a neve em sua maneira mais congelante.
Começamos os nossos passos. Você pegou a minha mão e começou a me guiar, me deixando usufruir da leveza que seus braços proporcionavam.
Éramos como luz dançando em meio à escuridão. Nada nos parava. Os críticos, que ali não estavam ou não assistiriam a este espetáculo de modo algum, falaram por dias e dias sobre o quão magnífico nós estávamos. Como a nossa técnica e maestria encantaram todos os espectadores que nunca veriam este momento.
Todos estavam falando de nós. Da nossa dança. De quão grandes éramos. Eu estava encantado, era uma pétala em suas mãos, que a manuseavam com carinho e delicadeza.
Você me jogou ao ar e então me levou tão perto ao chão que o frio da madeira esfriou a minha espinha. Você me girou e me girou e me girou. E eu me permiti ser conduzido por você.
Dançamos até que a noite se tornou dia. Que o frio da madrugada se tornou o abafo da manhã. Dançamos até que não estivéssemos mais sozinhos. E, quando a primeira pessoa passou pelas portas do grande salão e acendeu as luzes, me assustei. Estávamos rodeados de espelhos, como de costume. Mas eu não era capaz de me ver, há muito estava morto. Só havia você, tristeza, me guiando nesta valsa de solidão.
