Sorrisos

Wanderley Filho
Nov 5 · 4 min read
Photo credit: nprkr on Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

De tudo que o encantava em Irene, o mais impressionante era a boca. Os cabelos de mel e a pele de luz vibrante também o comoviam, mas era o fremir suave da carne sobre os dentes a força que mais embevecia a sua vigília. Ele adorava contemplar esse espetáculo. De certo modo, ele a ouvia só com os olhos. E mesmo em silêncio, se por acaso os lábios de Irene estivessem secos, as pequenas rachaduras no batom incitavam nele a vontade de restaurar-lhes a umidade; mas se brilhassem molhados, o impulso se invertia, atiçando-lhe a sede. Esse torpor hipnótico era mais que reação fisiológica, era a própria intuição de uma filosofia das formas: a possibilidade de perceber os efeitos que a harmonia entre traços, tamanhos e volumes poderia causar a quem a observasse. Sim, era linda a boca de Irene.

Poucos, pouquíssimos, seriam capazes de perceber ali certos detalhes de personalidade, como a presunção vaidosa que acenava rapidamente ao final de alguns sorrisos, ou o biquinho de desapreço que, combinado com as sobrancelhas sutilmente cerradas, destilava pelos cantos contidos pequenas gotas de um sarcasmo tirano. É sempre mais fácil notar esses trejeitos em retrospecto, mas na hora mesmo, a se viver o presente de tais circunstâncias, a consciência parece adormecer. E assim, bastava que Irene falasse sobre qualquer assunto para que seu interlocutor, ansioso por agradar quem agradava ao seu olhar, concordasse automaticamente com tudo. Isso a divertia.

O pobre Rubens que o diga. Pobre de autoestima. Administrador de empresas sem vocação, herdeiro de família abastada, sua penúria era de outra natureza. Mesmo assim, apesar das fragilidades de espírito, a devoção que tinha por Irene não era de todo uma sujeição voluntária. Para sermos justos, é preciso reconhecer que o sorriso dela, assim como os olhos de Capitu, possuía um estranho poder atração. O brilho dos dentes bem perfilados, a dança charmosa dos lábios a bailar entre vogais e consoantes, com movimentos comedidos e ainda assim exuberantes, tudo isso extasiava Rubens, que deliberadamente ignorava outras características físicas de Irene, caso não fossem do seu gosto. É que diante do conjunto, sem esquecer o apoio do humor ferino com que a bela jovem esgrimia argumentações, tudo nela, pela ação da força do todo sobre as partes, se amoldava ao conceito de beleza sugerido, desde o início, por sua boca e seu sorriso.

Para evitar confusões é fundamental dizer que sobre Irene, ao contrário de Capitu, nunca pesaram suspeitas, fundadas ou infundadas, de infidelidade. Não por devoção ao amor romântico, mas pelo conveniente cuidado com a própria imagem. De todo modo, para Irene, constatar as reações que causava na maioria dos homens e mulheres que a cercavam era uma necessidade de autoafirmação. Superficial? Sim, claro, mas isso não muda a realidade.

O fato de ser, tal como a nossa Capitu, uma mulher casada, intimidava ainda mais o pobre Rubens, que na casa dos trinta e poucos anos já acumulava dois divórcios. Ocorre que para ele os sorrisos de Irene pareciam, em certos momentos, discretamente provocantes e enigmáticos, o que encorajava os despretensiosos devaneios de Rubens. Sorrisos que em suas fantasias emanavam ambiguidade, como uma Mona Lisa a provocar as mais sugestivas interpretações. Com o tempo, essas impressões levaram Rubens a uma inquietante perturbação de escrúpulos.

E assim, certo dia, ao vê-la sorrindo para ele, e ao sentir suas mãos se tocarem, pressentindo que as circunstâncias lhes pareciam favoráveis, Rubens declarou seu amor a Irene. Na verdade não era amor, mas volúpia. O coitando não sabia a diferença. Irene, sim. Ciente disso, ela desprezou as pretensões de autossatisfação de alguém fraco como o Rubens. Se tinha esse juízo a respeito dele, por que então permitir e estimular o seu enlevo? Simples. Ver um homem se humilhar assim era um prazer indescritível para Irene, uma vingança de gênero. Ao ouvir aquelas palavras, ela inclinou o rosto para baixo como se fosse surpreendida por um acesso de timidez, escondendo a boca com as mãos e privando o olhar de Rubens de sua hipnose. De início, ele imaginou ouvir um choro, mas conforme Irene reerguia a face e voltava a exibir os lábios, um estranho riso parecia se formar, contido a muito custo em meio a pequenas convulsões, que depois evoluíram para uma sonora risada, adquirindo aos poucos feições de aversão, até explodir numa inesquecível gargalhada de escárnio.

Desde então, de tudo o que mais causava repugnância a Rubens em Irene era a sua boca. A mesma boca fremente e linda que rira do seu pungente amor-próprio.

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