De Madame Satã à Liniker: Breve reflexão sobre o corpo queer no audiovisual brasileiro

O filme Madame Satã do cineasta Karim Aïnouz me atravessou desde a primeira vez que o assisti — lá pelas tantas do começo dos anos 2000 , quando eu nem cogitava a possibilidade de cursar cinema — e continua me bagunçando até os dias atuais, quando assisto ao longa para trabalhos com fins acadêmicos.

Cena do filme Madame Satã

Lázaro Ramos empresta o corpo à João: negro, musa, transformista, macho, malandro e lutador de capoeira. Um corpo que existe a despeito de uma sociedade que ainda insiste em certos padrões morais, sociais e culturais brancos, cis, heterossexuais e cristãos. Um corpo queer, então, se pensarmos que a própria intervenção política/teórica queer brota da vontade de desmonte da heteronorma, de questões sociais, políticas e culturais engessadas, principalmente a cerca da sexualidade e identidade de gênero. O queer exige a quebra de conceitos que marginalizam, mutilam, desumanizam e matam corpos que subvertam o molde imposto.

Não farei spoilers, trago apenas um pequeno trecho logo dos primeiros minutos do longa de Karin, onde somos convidados a observar o corpo de João: pele negra, elegante, ombros nus. Ferido em todo o rosto, Satã está enquadrado em primeiro plano. Observamos demoradamente a superfície da pele maltratada. Em off, a voz do delegado — ou de outrem com autoridade similar — nos apresenta “o desordeiro frequentador da Lapa nos anos 1932, do Rio de Janeiro”, “o pederasta que usa sobrancelhas raspadas e adota atitudes femininas”, “fuma e bebe”, “Não gosta do convívio da sociedade, por ver que esta o repele dado os seus vícios”. Ou seja, o corpo de João (Madame Satã) é usado como agravante para qualquer que seja o delito que tenha cometido. Não importa, seu corpo negro e gay o torna culpado. Catalogado como aberração e marginalizado será, o corpo considerado desviante. E somente lhe será permitido existir, submetido a uma lógica de abandonado, onde será garantida a sua total ou parcial invisibilidade social: não o vejo na universidade, não o vejo no escritório, nunca nem mesmo o notei em mesas de bares ou restaurantes que frequento, logo, não existe?

Historicamente o corpo queer é o causador de desordem que existe a despeito da algema cultural e social imposta. Porém em meio aos meus estudos surge a seguinte questão: num âmbito audiovisual, quem seria um representante nos dias atuais, desse corpo que Karim Aïnouz capturou em 2002? O que deu para notar, é que esse corpo já vem sendo incorporado pelo mercado audiovisual, com outras intenções que aquelas que Karim nos apresentou outrora. No filme, Satã veste tudo aquilo que o torna abjeto, transborda em suas performances, porém paga o preço do seu atrevimento, é xingado, humilhado, apanha de policial e é preso. Diferente dx Liniker — artista, brasileirx em ascendência, negrx, pobre, bicha e de gênero fluído — que sustenta força, e empoderamento na propaganda da AVON, em entrevistas para programas de TV aberta, onde convida o público para a “bênção da lacração”, e apresentações musicais intensas disponíveis pela internet. A subversão ainda se faz presente. O corpo dx Liniker põe em xeque padrões morais, culturais e estéticos; somente a opressão social que parece não ser mais a pauta do momento. Às vezes acredito mesmo que vivemos outros tempos. Mas ao mesmo tempo ainda não vejo nem Joãos nem Linikers pelas ruas, na universidade, nem na padaria e nem mesmo em barzinho descolado.