O Grande Lebowski

Não é difícil classificar a produção O Grande Lebowski (Ethan e Joel Coen, 1998) no clássico ciclo do monomito. O personagem principal, Jeff Lebowski (Jeff Bridges), vive sua vida sem muitos desvios no seu cotidiano (beber, jogar boliche, fumar maconha). Até que é confundido por bandidos com um outro Lebowski que há na cidade. O conflito se estabelece, é trabalhado ao longo do filme, se resolve e tudo volta à tranquilidade.

Só que neste caso, a única coisa que acontece, após a resolução do conflito, é o restabelecimento da tranquilidade em si. Assim, ao fim da narrativa, Jeff Lebowski não está mais rico, mais famoso, não fez amizades durante sua aventura, não começou nenhum relacionamento, não provou sua coragem ou honra e não enfrentou medos ou adquiriu grande sabedoria. Ele apenas voltou para o exato ponto de sua vida que é mostrado quando a película se inicia. Mas, ainda assim, há uma conquista na jornada exibida. Jeff Lebowski, ou melhor, O Cara, alcançou seu objetivo: voltar à normalidade e viver sua vida em paz.

E a narrativa do longa constrói a personalidade dele de um jeito que qualquer espectador aceita com facilidade que ele realmente está feliz ou, ao menos, confortável ao fim dos créditos. Mesmo sem o dinheiro ou as virtudes, pois tudo o que o Cara quer é viver em paz. E ele é apresentado como um personagem simples, descomprometido, relaxado, preguiçoso (o próprio narrador o classifica como “O cara mais preguiçoso de Los Angeles”), sem nenhuma pretensão. E você acredita nisso ao assisti-lo em cena.

Por fim, de que outra forma podemos descrever um homem que troca o seu próprio nome por Cara (tradução da gíria norte-americana Dude)? Ele só quer ser normal, comum, um Cara qualquer.

O seu maior desejo é ficar fora de confusão. E todos os seus conflitos com outros personagens se dão por esta causa. Por isso é tão conturbada sua amizade com o ex-combatente Walter Sobchak (John Goodman). Walter é briguento, espalhafatoso, está sempre chamando a atenção para si.

Trailer

Por mais que em certo ponto da trama, o Cara esteja interessado no dinheiro, a motivação inicial, que o coloca dentro de todas as maracutaias, é conseguir um tapete, após bandidos urinarem no seu. Então você se pergunta. ‘’Por que a perda do tapete lhe foi tão significativa? Talvez porque era um tapete caro? Porque tinha valor sentimental?’’ Não, apenas porque o tapete dava “equilíbrio” à sua sala de estar.

- A vida não gira em torno de você seu miserável pedaço de merda. Walter (Bridges) - Cara, o que deu no Walter ? Theodore (Buscemi)

Ficha Técnica:

Título original: The Big Lebowski. Direção e Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen. Elenco: Jeff Bridges, John Goodman, Julianne Moore, Steve Buscemi, David Huddleston, Philip Seymour Hoffman, Tara Reid, Philip Moon, Mark Pellegrino, Peter Stormare, Flea, Torsten Voges, Jimmie Dale Gilmore, Jack Kehler, John Turturro, James G. Hoosier, Carlos Leon, Terrence Burton, Richard Gant, Christian Clemenson, Dom Irrera, Gérard L’Heureux, David Thewlis, Lu Elrod, Mike Gomez Peter Siragusa, Sam Elliott, Marshall Manesh. Harry Bugin, Jesse Flanagan, Irene Olga López, Luis Colina, Ben Gazzara, Leon Russom, Ajgie Kirkland, Jon Polito, Aimee Mann, Jerry Haleva, Jennifer Lamb, Warren Keith, Wendy Braun, Asia Carrera, Kiva Dawson, Jeff Dowd, Robin Johnson, Jaime Peralta, Anthony J Sacco. País: EUA, Reino Unido. Gênero(s): Comédia, Crime, Ação. Fotografia: Roger Deakins. Trilha Sonora Original: Carter Burwell. Edição: Ethan Coen, Joel Coen e Tricia Cooke. Figurino: Mary Zophres. Duração: 117 min. Estreia no Brasil: 09 de Julho de 1999. Classificação indicativa 14.

O Cara é só um homem que quer ficar em casa, sem se exaltar, às vezes, ficar no boliche de boa também não lhe faz mal, com bebida na geladeira, com um sofá e um tapete na sala. E ele é claramente um personagem que dialoga bem mais com a maioria dos espectadores do que gostaríamos de admitir.

Afinal, o papel do cinema foi por muito tempo o de mostrar mocinhos virtuosos vivendo grandes aventuras para que nos sentíssemos grandiosos ao nos identificarmos com tais personagens. Todavia, vamos falar a verdade: por mais niilista que isso possa soar na teoria, na prática quem é que não gostaria de viver na inércia e na tranquilidade, sem grandes arroubos e inconvenientes?

Por

Luana Rosa