Agonia.

Ontem no terminal Parque Dom Pedro entrei no ônibus para seguir rumo a minha morada.

Geralmente o ônibus demora um pouco para sair. Ontem em especial demorou uma eternidade..

Enquanto não saia, passageiros embarcavam.

Por um momento me senti no filme Stardust Memories (Memórias, Woody Allen), na cena inicial em que ele está em um vagão de trem e ao olhar a sua volta se depara com feições agoniadas, assustadas, espantadas, compenetradas e que em muitos momentos beiram o esquisito (a questão do que nos é normal é bem ampla e merece reflexões aprofundadas).

Tinha passado o dia na fábrica da empresa em que trabalho no interior e após enfrentar uma série de trânsitos (variadas intensidades), enfim consegui chegar ao terminal.

Sentia um sono que não me lembrava de ter sentido em outro momento de minha vida ao longo de 29 anos.

A porta de desembarque se abriu para que uma criança entrasse para vender amendoim e assim permaneceu. A agonia começou a tomar conta de mim. Olhei para as outras plataformas na tentativa de encontrar outros itinerários para que eu pudesse seguir rumo a zê ele.

Olhava a hora no celular. Olhava para ver se o motorista e o cobrador embarcavam.

Olhava a hora no celular e olhava para ver se o motorista e o cobrador embarcavam.

Nada.

Olhei para a direita e a porta permanecia aberta. Pensei em descer.

Desço?

Não desço?

Desço?

Não desço?

Desci!

Atravessei a plataforma e entrei noutro ônibus. Não demorou muito e saiu.

Era um ônibus com ar condicionado.

Na zê ele existe ônibus com ar.

Ar condicionado.

Tava calor.

Por um curto período me senti no paraíso.

Mas aí, a agonia falou mais alto novamente. Caraio, até chegar onde tenho que descer vai demorar uma cota.

Tava sem paciência.

Paciência que às vezes sobra.

Faltou.

Desci de novo.

No Brás.

Vou de metrô, foda-se.

No curto espaço entre o ponto de ônibus e a entrada da estação, roupas, lanches, pururuca, moradores de rua, táxis e barulho.

Muito barulho.

A travessia para chegar ao metrô quando se entra na estação Brás é praticamente uma meia maratona.

Nunca andei tanto na vida.

O bom disso é a oportunidade de observar.

Gosto dessa parada de observar.

Um cara de moicano colorido, numa pegada meio clubber, meio punk, meio meio estava sentado tirando uma pestana.

Ou podia estar meio triste.

Vai saber.

Chego a plataforma e logo o metrô aparece. Metrô com ar condicionado daquele jeito.

Metrô com ar condicionado é extremo. Ou tá desligado ou tá congelando.

Pego um livro de crônicas do Antonio Prata pra ler.

Meio intelectual, meio de esquerda. Quando comprei achei que era de conteúdo político.

Acontece.

Baita livro, o cara escreve muito.

Seleção de crônicas do período em que ele escrevia no Estadão.

Viagem flui bem. Fico indeciso quanto a estação que vou descer.

Vila Matilde ou Guilhermina?

Desço na Guilhermina.

Ufa, agora falta pouco.

Desço a plataforma e me dirijo a uma lotação.

Chego no ponto e ela sai. De boa, mesmo agoniado não sou muito fã de correr atrás de condução.

Espero a próxima e vou sentado.

Desço e atravesso a avenida, rumo a viela.

Não sei ao certo, mas tem uma luz na viela que deve funcionar mediante presença.

Ou não, pois sempre que passo pelo poste a luz apaga.

Mas já não consigo pensar em muita coisa a não ser em cruzar o portão e entrar em casa.

Caraio, dia louco cansativo da porra.

Calor, trânsito, condução demorada, calor, agonia.

Rapaz…

E pensar que dentro de algumas horas tudo começa novamente.

Espero que com menos intensidade.

Segue o jogo.