Representação, eleições e um pouco de raiva.

O ônibus tava cheio.
Até aí sem novidades. 
Mesmo sendo um ônibus articulado estava bem cheio.
Têm dias que os veículos que seguem pro centro somem. 
Os que passam, já estão lotados e não param no ponto.
Com certa dificuldade, tento me locomover sem perder o equilíbrio.

Acho um canto perto da catraca, mais não consigo passar por ela.
O cobrador, figura conhecida de outras viagens está batendo um papo.
Passado alguns minutos, uma frase ganha o ambiente. 
Coloca o Bolsonaro que resolve. 
A frase me chama a atenção.

(Antes de mais nada, cada um tem total liberdade para expressar suas visões políticas onde bem entender, desde que não haja desrespeito nem ofensas gratuitas a outrém, segue o baile).

Voltando.
Na troca de ideias e impressões com uma passageira, citou a ausência do candidato na lista de investigados da Lava Jato.
Somente isso já o gabaritaria para colocar jeito em nosso país. 
Talvez, a única esperança para o momento.
Aproveitou, ainda argumentando em defesa de seu candidato para citar o episódio dos R$ 300 mil que foram depositados em sua conta e o mesmo devolveu ao partido. 
Aí aproveitou para dizer que se lá estivesse, somente seu salário seria suficiente para sobreviver. Não entende a ganância do homem público em querer sempre mais.
Tem uma frase que pode ilustrar isso, não sei ao certo de quem é mais diz ‘Dê poder a um homem e descubra quem ele é.’

Logo, a conversa começou a avançar para outras questões cotidianas, como o jovem que teve sua testa tatuada após tentar cometer um ‘suposto’ assalto.
Disse que apoiava este tipo de ação e que todos os que cometem delitos deveriam ter esse tipo de marca. 
Caso não houvesse melhora, que fossem adotadas práticas de amputação de membros (mãos), como é feito lá fora. Não havendo melhora, execução, com munição paga pela família.

Neste meio tempo, uma moça que fala com seu namorado ao celular, reclama que o Prefeito colocou ônibus velhos pra rodar na linha e aproveita para desabafar que políticos só servem para atrapalhar. Eu sinceramente não sabia que era o Prefeito que escalava os veículos que iam rodar em determinada linha. Cada dia um aprendizado diferente…

Retomando.
A redução da maioridade penal entra em pauta. Ele diz que seu candidato defende desde seu primeiro mantado que isso deve ser feito, mais esbarra em seus ‘colegas’, já que ninguém leva isso para frente. Faz certa troça das questões que envolvem direitos humanos. Ao seu ver, direitos humanos, para humanos direitos.

Por um curto período a prosa se esgota. 
Lembro do ‘debate’ entre o historiador Marco A. Villa e Bolsonaro em uma emissora de rádio. Um show de horror pelo desrespeito do entrevistador por não deixar o convidado falar, e outro show de horror por parte do entrevistado que mostra desconhecer a fundo o próprio país e se apega a alguns pontos ‘fixos’ em suas falas. Uma matéria na Folha de São Paulo, trata de algumas viagens para o Nordeste, onde o mesmo tenta ganhar terreno, uma vez que historicamente a região Nordeste é um forte reduto petista (partido que perdeu-se em algum momento, mais que ao contrário do que se apregoa não começou a corrupção). É assustador constatar sua popularidade em alguns locais, em detrimento de outras coisas que acabam por viralizar como memes.

Camisetas são vendidas, cantos entonados. E assim, nas pesquisas de intenção de voto, o candidato já conta com 15% de preferência entre os entrevistados. Ainda fazendo menção a matéria do jornal, uma jovem diz que o admira pelo fato d’ele falar o que muitos pensam. E se olharmos a fundo, as redes sociais acabaram por eliminar essas fronteiras e todas e todos têm voz ativa para falar o que lhe vierem a mente. Algo um tanto perigoso, uma vez que política não é futebol.

O papo é retomado. O assunto agora passa brevemente por porte de arma. Ele fala que 2018 é Bolsonaro, que o candidato irá trazer de volta a ditadura militar (após essa frase fiquei meio perdido) e que irá aprovar o porte para todas e todos. Nem que seja pra deixar em casa. Bandido tentou invadir, é bala na cabeça. 
Simples assim.
Pensei brevemente que seria uma carnificina feladaputa dar arma pra geral.
Nova onda de silêncio.
O ônibus vai se aproximando de seu destino e consigo atravessar a catraca.

Como escrevi lá no começo, sou totalmente favorável a exposição de ideias, desde que seja respeitado o outro e que a coisa não caia de nível. Mas, preocupa um pouco ver que uma candidatura está sendo construída embasada em discurso de ‘não roubo, não faço parte disso nem daquilo, me coloca pra fazer o Enem junto com Lula e Dilma…”. 
Porra, honestamente o mínimo que se espera de um político é lisura em seu comportamento. O candidato eleito está ali em representação ao povo. Deve trabalhar em prol da melhora coletiva e não de seu enriquecimento e das benesses de amigos, financiadores e grupos de mídia. Agora esse discursinho que incita ódio e transforma um Deputado que em 6 mandatos pouco fez traz a tona uma nuvem bem cinza.

Ainda mais se levarmos em conta a eleição nos EUA, e a chegada ao segundo turno da candidata da extrema-direita (Le Pen) na França. Sem contar que na Holanda também houve algo parecido. E se você olhar, o atual estado das coisas ao redor do mundo tem certo rancor em suas entrelinhas.

As informações circulam numa velocidade absurda e as pessoas as consomem de acordo com suas ideologias e com suas bolhas sociais. Algoritmos entregam pra você, o que você gosta de ver. E não é saudável construir uma linha de raciocínio apenas escutando quem pensa igual a ti. É importante vez por outra escutar quem pensa diferente de você. Chegar a um consenso.

Desci no ponto final e fiquei pensando durante um bom tempo na prosa que escutei em meio a uma dezena de pessoas. Preocupa ver que estamos carregando tanto rancor no peito, querendo resolver as coisas levando tudo pras vias de fato. Tortura, porrada e bala. Triste. A perda de fé nas instituições, que provam a cada dia estão mais e mais combalidas. Partidos políticos, verdadeiros galpões de negócio. Cargos, indicações, sucateamento de um país que podia ter um puta potencial pra figurar entre os grandes, desemprego crescente.

Triste tempo pra se viver. 
Ainda falta mais de um ano pras eleições. 
Prestem atenção aos sinais. 
Questionem. 
Busquem informação.

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