Um Jovem Quase Centenário

Por Marcus Vinicius Sousa

Foto: Lucas Reis

Por meio destas palavras procuro tornar pública a minha história. Nasci para ser visto, nasci para ser admirado, nasci para ser público, mas a verdade é que os dias de glória têm dividido espaço com difíceis e árduos momentos de luta. Apesar dos meus 96 anos de idade recém-completados, gostaria de deixar claro que não me sinto velho. Sou morador de rua com orgulho. É isso mesmo, sem espantos, por favor.

Desde o dia 7 de setembro de 1922 (data de meu nascimento) moro nas ruas de Belo Horizonte. Sou filho de arquiteto, meu pai se chamava Antônio Rego. Nasci dentro de uma pedraria nas mãos de um engenheiro.

O senhor Antônio Gonçalves Gravatá foi quem ajudou a me “dar à luz”. Apesar de ter nascido em local simples, minha vinda ao mundo teve motivo nobre sim senhor. Vim morar nas ruas de Beagá a pedido de Raul Soares o então Presidente de Minas.

Cheguei ao mundo no dia que o Brasil comemorava cem anos da emancipação de Portugal. Morei na Praça Sete por anos, mas para chegar até ali não foi assim tão fácil. Devido ao meu peso, um pouco fora dos padrões, uma estrada férrea fora construída especialmente para me transportar. Meus 7 metros de altura não me permitiam passar despercebido. Acompanhei dia após dia o crescimento de Belo Horizonte. Já prevendo momentos difíceis. Com o passar do tempo minha presença em uma posição tão nobre quanto a que eu ocupava — o cruzamento entre as avenidas Amazonas e Afonso Pena — passou a incomodar. A final de contas o município precisava priorizar os carros que se multiplicavam pela cidade. Foi então que em 1962 fui retirado daquela posição de honra para ser jogado em um lote vago na região Centro-Sul da cidade.

Em 1963 fui convidado a morar na Praça Diogo de Vasconcelos (Praça da Savassi). Por ali fiquei por cerca de 20 anos. Em 1980, percebendo a injustiça que havia cometido, a sociedade passa a clamar para que eu volte à Praça Sete. Acabo aceitando o convite de bom grado. Voltar àquele local depois de anos não foi tarefa simples. A sociedade já não era a mesma, os carros já dominavam as avenidas, os prédios pareciam tocar o céu, pessoas iam e vinham aos milhares, cada uma com um destino e sem tempo para me contemplar. Passei a sentir-me diminuído e sem importância para aquela sociedade que mal sabia da minha história.

Hoje, com quase cem anos, estou mais vivo e disposto do que nunca. Dou-me ao luxo de olhar para trás e observar o quanto fui importante para a cidade. Permitam-me deixar a modéstia para outra hora e exaltar alguns momentos de glória protagonizados por mim: para os que não conhecem minha história, saibam que no carnaval de 2013 me propus a vestir um preservativo gigante para alertá-los quanto à importância do sexo seguro. Para os que não notam em mim a menor importância, saibam que todo mês de outubro me ilumino de rosa para conscientizar as mulheres da importância da prevenção do câncer de mama. Para os que me acham desnecessário, saibam que já aceitei que professores se acorrentassem a mim para reivindicar melhores condições de trabalho. E, finalmente, para os que não me dão o menor valor, lembro que já fui palco de intensas e importantes manifestações populares.

Apesar de tudo isso, não poderia deixar de registrar o descaso com o qual tenho sido tratado. Constantemente sou alvo de vandalismos como pichações, por exemplo. Pessoas de bom coração tentam proteger-me das depredações. Apesar dos difíceis momentos por mim vividos, digo que seguirei em frente. Continuarei recebendo os visitantes para a virada cultural e a folia de carnaval. Todos os protestos pacíficos realizados nas minhas proximidades continuarão sendo bem vindos. Lutarei sem cessar pelas causas sociais que envolvem nossa sociedade. Agradeço aos que me dão valor e continuarei lutando para conquistar o respeito dos que me tratam com indiferença. Qual o meu nome? Pois bem, revelo a vocês agora: Obelisco da Independência, mas prefiro ser chamado pelo apelido doce e carinhoso: Pirulito da Praça Sete.

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