Esboço 2

- Kraft.

- Estão me chamando.

- Kraft!

- Mais uma vez.

- Está me escutando?!

- O que está acontecendo…

- Você está bem, Kraft?

Os sinos ecoam pela manhã e o orvalho se aquece. É um novo dia para Kraft Lawrence. Com a palma da mão, ele limpa os olhos e espanta o pouco da palha que fugiu dos tecidos surrados que a envolviam com o revirar da noite. Ao seu lado, um pequeno banco de madeira antiga, porém incrivelmente trabalhada suportava uma tigela com pedaços de pão e uma caneca de leite, ainda fumegante. A Terra continua gélida, a cidade, aos poucos acorda, e vapor ainda acompanha sua respiração. O sol timidamente encontra seu caminho entre as altas torres do castelo central até as frestas de sua janela, que, por algum motivo, nunca conseguira fechá-la direito. A rotina continua exatamente a mesma dos últimos cinco anos.

– Tá n’ora de acordar.

– Bom dia, pai — Sussurrou Lawrence, enquanto descia as escadas, ainda sonolento.

– Hoje teremos muito trabalho, coloque o avental e –

– Não pode ser! Eu esqueci completamente! — Disse Lawrence, sapateando nos degraus da escada. — Não, não!

– É filho, o prazo ficou apertado, mas vamos dar conta de forjar as dez peças que a Coroa pediu.

Correndo pela oficina, já não mais prestando atenção no que seu pai falava, Lawrence recolheu uma pequena espada que vinha forjando como treino para as aulas do pai e deixou-a na mesa mais próxima. — Não é isso que eu quero dizer! — E subiu as escadas, às pressas.

Quando voltou, dessa vez pulando metade dos degraus, Lawrence tinha em seus braços alguns equipamentos trabalhados, caneleiras e um pequeno corselete de couro batido. — Eu vou participar pai! — Disse, tentando manter a feição de um rapaz sério, prestes a entrar em sua vintolescência, porém, ao mesmo tempo, o de uma criança implorando pela sobremesa antes mesmo do desjejum — Eu quero participar da Grande Caçada! Eu vou!

Confuso, seu pai, que não estava em uma idade tão avançada assim, porém aparentava desgasto pelos anos como ferreiro, deixou de lado seu fiel martelo e sentou-se à mesa mais próxima, retirando as lascas de metal em um único peteleco.

Tudo bem — Disse o pai, folgando o avental de couro na região da barriga. — E o que você vai fazer lá?

– O que todos querem! — Seus olhos brilhavam. — A cada quinquênio o reino se reúne para comemorar o nascimento do próximo herdeiro, e aventureiros de todas as partes são convidados com um único objetivo, buscar as [NOME MASSA PRAS JÓIAS].

– Kraft, essas Jóias são puramente lendas, você realmente acha que elas existem? — Ele riu, acariciando sua espeça barba grisalha. — São histórias para criança dormir. Invenções de cavaleiros habilidosos em armaduras brilhantes… Pedras mágicas… Monstros… Oras! Não brinque comigo. Os poucos aventureiros de renome são convidados por simples formalidade. Essa caçada é só tradição. Tradição, e assistir os bobos que ainda acham que são capazes darem de cara com a realidade. E, aliás, do que acontecerá com a nossa oficina? Estou ficando velho, cumprir com os prazos da Coroa está cada vez mais difícil. Eu venho lhe ensinando todos esses anos pois quero que você me substitua, eu quero você como herdeiro, Lawrence. E você tem habilidade para isso. Este é o meu único legado.

– Eu sei pai, sei que é tudo invenção! Todos sabem que não existe magia! — Respondeu de um modo grosseiro. — Mas quem trouxer as Jóias para o Rei ganhará um título de nobreza com a Coroa. Viveremos bem, e o senhor não precisará mais trabalhar tanto! A história das pedras mágicas é só uma lenda, óbvio, mas também um meio da Coroa descobrir os melhores exploradores do Reino!

– E como você vai competir? Dentre tanta gente que se reúne, com certeza deve ter alguns poucos que são realmente capazes de se aventurar por aí — Levantou-se devagar.

– Eu venho treinando! Tudo o que você me ensinou não foi em vão, eu forjei a minha própria espada, e modifiquei algumas peças em couro que comprei de um caçador aposentado. — Disse ele, um pouco mais animado. — Lembra-se de quando você fez seu acordo com a Coroa, ano passado? Os cavaleiros que vieram junto deixaram uma nota. O padre leu para mim na época, era uma pequena lista sobre o que estavam arranjando para o evento. Ele até me ensinou a ler e escrever depois! Tudo para me preparar para o dia de hoje, pai.

– Você sabe dos perigos que vivem lá fora nas florestas, não sabe? — Disse o pai — Não desejo que você volte para casa como um aleijado, ou pior, morto por causa de um sonho insensato como esse.

– Eu trabalhei muito por isso, estou preparado — Disse Lawrence, convicto. — Além do mais, a Coroa detém de uma pequena seletiva antes de aprovar todos os aventureiros, será uma boa hora para eu provar minhas habilidades. Se não me der bem lá, volto para casa.

– Entendo — Disse o pai. — Vejo que não serei capaz de mudar sua cabeça. Você foi sempre tão teimoso — Respirou fundo. — Suponho que seja um adeus, então.

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