Dois meses como Uber driver em SP

Quando estava em meu último emprego, sempre passava pela minha cabeça a possibilidade de trabalhar dirigindo para a Uber. Isso se estendeu até o dia em que eu demorei quase 3 horas pra chegar no escritório e resolvi ligar para saber como fazer para alugar um carro.

O processo de sair do meu antigo emprego foi pouco doloroso e bastante receptivo, uma vez que todos me deram o suporte que eu precisava (embora com algum choque), assim como eu tratei de colocar logo alguém no meu lugar antes de sair da agência, tudo em paz, pelo menos do meu ponto de vista.


Assim que tudo estava pronto, baixei o app Uber Driver e comecei a fazer o cadastro, como a atendente da locadora havia me indicado a fazer.

Durante esse processo, eles pedem uma foto de sua carteira de motorista, que precisa ter a mensagem “exerce atividade remunerada” no campo de observações*. No dia seguinte, fui ao Detran e providenciei essa alteração. É um procedimento simples, mas que requer o pagamento de uma taxa (sempre requer uma taxa) e você precisa refazer o exame psicotécnico (sempre requer um exame).

No dia seguinte, recebi uma ligação da Uber indicando duas locadoras famosas e me pedindo para marcar um horário para retirar o carro no dia seguinte (esse foi meu único contato telefônico com alguém da Uber — mais sobre isso adiante).

Cheguei na locadora no horário programado e fiz os pagamentos: eles pedem o valor da locação mensal mais um caução no cartão de crédito. Segundo as pessoas que perguntei sobre o assunto, todas as locadoras trabalham relativamente dessa mesma forma.

Saindo de lá, cadastrei o documento do carro no app e, pouco mais de uma hora depois, estava livre para começar a dirigir.

*Recentemente, o DETRAN alterou a mensagem do campo de observações e agora traz apenas a sigla EAR. Parece que tá tudo bem, embora eles te informem de maneira alarmante, como se isso fosse realmente fazer diferença na hora de começar a trabalhar. Fica calmo, vai dar certo.

Tempos antes de entrar nesse processo todo para trabalhar dirigindo um Uber, passei a perguntar a todos os motoristas o que eles achavam da rotina. Muitos deles me deram feedbacks excelentes sobre trabalhar como Uber driver, seja apenas fazendo isso, ou como um trabalho extra antes e depois do expediente.

Inclusive recomendo fazer o mesmo se você estiver pensando em começar a dirigir para a Uber. Eu tive uns 8 ou 9 feedbacks positivos e um negativo, de um motorista meio estressado e inconveniente, então acabei desconsiderando.

Na semana antes de me cadastrar e alugar o carro, eu tive o encontro mágico com um Jedi. Não lembro o nome do motorista, mas numa pequena viagem em que eu estava como passageiro, ele me contou coisas práticas sobre como ele deixa o Waze sempre apontando pra casa dele, onde quer que ele esteja, sobre entrar em ruas sem saída sempre de ré e sobre como eu ia acabar conhecendo todo o tipo de pessoas que eu jamais imaginei conhecer.

Depois de tudo pronto, eu estava inseguro pra começar. Adiei o primeiro dia porque era um feriado e, no segundo dia porque eu não tinha balas, nem água no carro, depois porque não tinha suporte pro celular, enfim. Fui encontrando desculpas até a hora em que me vi em casa com o carro parado e pensei, quer saber? Entrei no carro e liguei o aplicativo.

Minha primeira chamada foi com um cara que morava bem próximo da minha casa e trabalhava numa escola de música, ou seja, pareceu me dizer que ia dar tudo certo.


Os problemas que tive realmente foram todos nas duas primeiras semanas. Primeiro que, depois de começar a dirigir, eles te marcam um webinar ao vivo, onde uma funcionária fala algumas coisas bastante óbvias do tipo “deixe sempre o ar condicionado ligado antes do passageiro entrar” e “ofereça mimos, eles sempre garantem boas notas”.

Falavam o básico, mas não diziam o que fazer quando a pessoa se recusasse a pagar o valor da corrida porque estava com o dinheiro contado e foi cobrada uma taxa extra, ou quando a pessoa coloca uma caixa dentro do carro e diz “entregue lá na rua tal”. Acho que eles não deviam sequer usar a palavra “treinamento” ao falar sobre esse webinar.

Então sim, tudo o que você aprende é na rua, no velho esquema tentativa e erro, ou no grupo do Facebook, caso você tenha estômago (tem uma galera que lembra demais aqueles taxistas velhos ortodoxos e impossíveis de lidar).


Uma das partes que realmente me assustava quando eu estava para começar é que eu tivesse de fazer parte de um grupo de whatsapp com outros motoristas e a gente sabe que as piores coisas estão nesses grupos descontrolados.

Então decidi entrar no grupo do Facebook que, por algum motivo, imaginei que fosse ser melhor, ou que pelo menos tivesse um conteúdo mais interessante e menos gente falando abobrinha.

Ledo engano.

No grupo do Facebook a gente descobre muita coisa sim, geralmente utilizando a busca para problemas específicos. Vira e mexe alguém apresenta um problema diferente e isso realmente gera um banco de dados sensacional pra quem está começando.

Claro que em praticamente todos os posts existem haters, que ali se dividem entre os puristas criticando tudo e falando mal de “pax” (como eles chamam os passageiros), gente dizendo que trabalha 17 horas por dia e muita, mas muita gente falando toda hora que você vai ser assaltado.

Portanto, o grupo é um bom lugar para aprender algumas coisas do dia a dia, ver como outros motoristas têm trabalhado, mas é preciso muita paciência com os comentários de cada thread.


Depois de anos trabalhando em grandes empresas de horário-flexível-até-que-alguém-invente-chegar-às-11h, dá uma sensação de liberdade bem estranha e maravilhosa trabalhar no horário que você quiser, nos dias que você quiser e do jeito que você bem entender.

O que aprendi com esses meses: é essencial fazer um bom planejamento antes de começar. Tabelas com metas, horários, lucros e gastos diários. Caso contrário a coisa toda pode acabar descarrilhando sem você perceber, afinal você vai ter todos os dias dinheiro pra pizza, mas isso não quer dizer que você precisa virar cliente fidelizado da Domino’s do dia pra noite.

Outro ponto: existem passageiros muito sem noção da realidade que os cerca. Gente que chama Uber em ponto de taxi, em rua onde é proibido entrar de carro, gente que te deixa esperando mais de 10 ou 15 minutos, gente que reclama até do tipo de bala que tem no carro, que não quer pagar taxa, mesmo o aplicativo avisando antes.

Eu estive em todas essas situações acima.

Você aprende na rua a distinguir quando uma pessoa quer ficar quietinha na dela, quando ela se permite conversar, quando ela faz criticas que valem a pena ouvir, ou quando falam apenas bobagem de gente mimada demais para encarar o mundo. Eu não concordo com muitos passageiros, mas considero completamente inadmissível entrar em conflito seja qual for a ocasião.

rola umas quebradas e adesivos excelentes pela rua também.

Nesse período tive alguns problemas e considero este o maior erro do aplicativo: a falta de suporte para com os motoristas parceiros. A primeira vez que me ligaram perguntando se eu queria mesmo dirigir depois de ter feito o cadastro, a atendente me tratou tão bem e de um jeito tão bacana que me fez acreditar que se eu precisasse de alguma ajuda ela viria sempre de braços abertos dizendo que ia ficar tudo bem com chocolate e bolachas.

Mas claro que não.

Todas as vezes que tive de resolver um problema, fosse por falta de pagamento ou qualquer outra situação com níveis diferentes de bizarrice, tive de entrar em contato pelo aplicativo. Claro que eles resolveram em pouco tempo — o que foi bem OK — mas a resposta vinha sempre com uma dica óbvia em tom meio agressivo-humilhante nivelando por baixo o motorista que tava só tentando resolver uma situação que pareceu estranha em algum momento.


Bem, esse texto é uma espécie de micro compêndio sobre meus dois meses trabalhando como motorista de Uber em São Paulo. Eu gostaria muito de contar todas as histórias, mas ele não abrange tudo o que passei durante este ofício, como a cena do executivo cortando as unhas (e jogando elas no chão do carro), ou a senhora advogada estudiosa de botânica, que tinha o português mais perfeito que já conheci.

Uma boa dica para quem for dirigir: faça um diário com as experiências das suas viagens, ainda que seja apenas para você mesmo ler um tempo depois. Eu fiz stories sobre os lugares por onde passei (e sempre que lembrava de fazer também).

Eu acabei parando por falta de planejamento (e porque voltei a viver de freelas como redator, o que no fundo é basicamente a mesma coisa). Para quem me pergunta, eu recomendo fortemente. Meus últimos salários em grandes empresas não chegavam aos pés do que ganhei vivendo como Uber driver nesses dois meses e isso me revelou uma profissão bem interessante para mudar de ambiente, para aprender a conviver com diferentes tipos de pessoas, além de ter me ajudado muito em questões pontuais do tipo perder um pouco da timidez e a falta de jeito para lidar com desconhecidos.

Claro que depende muito do seu estilo de vida e do que você vai se permitir. Tem motorista que não trabalha aos finais de semana, assim como aqueles que só trabalham no sábado e domingo. O que pra mim é imprescindível, como disse, é criar um planejamento baseado no mínimo que você pode receber por semana. Você se baseia no mínimo porque, caso ainda seja quinta-feira e você já tenha alcançado a sua meta, pode ter certeza que vai ter uma grana a mais no fim das contas.

Não me entenda errado, você vai trabalhar e muito. Isso que dizem de ficar 12–14 horas na rua dirigindo é verdade, mas com o tempo você vai acabar descobrindo os melhores horários e lugares para estar. Se alguns dias você vai ficar mais tempo na rua do que imaginava, em outros vai poder sair às 15h e pegar uma sessão vazia para assistir Guerra Infinita tranquilamente.


Só pra finalizar esse registro, ainda apareço no comecinho dessa série sobre a viagem pro Uruguai do meu amigo Bruno Borges (não é o filósofo do Acre, mas bem que podia ser) e sua namorada, a Bruna Marcondes. Levei eles para o Aeroporto Internacional de Guarulhos antes das 4h da manhã: