Vegetarianismo e passatempos

Como a inocência no olhar dos meus gatos está me fazendo parar de comer carne


Muito tempo atrás tive uma namorada que me contou sobre um passatempo que havia adquirido depois de muito tempo pegando transporte coletivo e convivendo com múltiplos tipos. Ela passou a enxergar as pessoas como animais, como se fôssemos todos bichos numa selva (o que mais tarde eu aprenderia que é uma breve descrição do mundo mesmo).

Passei um tempo com ela e neste período lembro de tentar usar essa pequena diversão nas lotações em que pegávamos juntos, embora sem sucesso. Ela, criadora do hábito, tinha as melhores descrições de pessoas como bichos que já ouvi na vida.

Mais tarde, na época em que passei a frequentar diariamente escritórios e outros locais de trabalho e, certa vez, sentado na minha estação de trabalho esperando uploads e planilhas de Excel travadas, olhei um cara conversando perto de mim com um amigo, sobre o novo apartamento que um deles havia alugado: “cara, é muito vibe, tem quadra de tênis, sauninha, churrasqueira, manero, logo mais vamos marcar”. Notei que aquela conversa se parecia muito com dois amigos de quatro anos de idade num playground, sentados com potes cheios de areia falando sobre como a casa de campo dos pais é divertida.

Abri um quase sorriso por um tempo assim que eles se afastaram e vi entrar pela porta um dos funcionários mais detestáveis da empresa. Um cara que gritava com estagiários e copiava todo mundo nos e-mails reclamando da sujeira na copa. O cara que era gordinho, carrancudo e criava tensões em qualquer ambiente. Ele entrou na sala com uma garrafinha fofa do Corinthians, meio infantil.

E lá estava eu com um novo passatempo.

Afinal, no fundo, aquele cara malvado havia sido uma criança um dia. Uma criança com birra, com manias bobas, gritando pra mãe comprar um carrinho no mercado. E a criança ainda estava lá naquela cena daquele fulano sozinho, entrando com uma garrafinha de lancheira e com a camisa pra fora da calça. Se você procurar bem, dá pra ver naquele diretor de marketing dedicado o CDF quatro olhos, ou na linda e blasé secretária, a bully popular que fazia todo garotinho se apaixonar perdidamente.

(Neste momento você certamente está se perguntando o que tudo isso tem a ver com o vegetarianismo e eu lhe digo que estamos chegando lá, prometo)

Vinte e sete anos. Eu demorei vinte e sete anos para sair da casa dos meus pais. Anos depois, adotei dois gatos e os “batizei” com nomes de personagens do filme que mais gosto no mundo. Os conheci pequenos, pouco maiores que minhas mãos. Os ensinei a fazer necessidades na caixinha de areia, os segurei no colo quando eles choravam porque eu demorava muito pra chegar no fim de semana, me senti orgulhoso quando eles pularam o muro de casa e voltaram. Lembro quando eles conseguiram subir no sofá, da primeira vez que acordei com eles ao meu lado, quietinhos. Nos damos muito bem e contaria mais coisas sobre nossa relação caso isso não desvirtuasse ainda mais este texto.

Com eles eu evoluí esse passatempo de enxergar crianças em tudo para o aprendizado de que os bichos, como nós, crescem e conseguem fazer coisas maravilhosas com as suas existências, porém nós, os humanos, somos os únicos que precisamos mostrar para os outros como somos bons no que fazemos, como estamos bem na vida e o quanto estamos felizes no processo.

Os pets, os bichos na selva, no mar, não precisam de nada disso, o que confere a eles uma superioridade: eles mantém a inocência em dia. Eles precisam comer, beber, se divertir e não precisam de um álbum de fotos no facebook sobre a eurotrip dos sonhos com uma foto fazendo hangloose com as duas patas.

Eu passei também a lembrar do meu pai dizendo sobre como, para ele, eu e meu irmão seríamos sempre os garotinhos pequenos que ele colocava dentro da jaqueta, sobre como ele até hoje nos defende em qualquer ocasião e faz o que for preciso para nos ajudar.

Cada animal numa fila de matadouro foi um dia um bebê que ficou com medo de toda aquela luz ao nascer, que se aconchegou nos seios de sua mãe para se alimentar e que não entendeu nada quando foi arrancado do convívio de sua família e jogado numa sala com gente cheia de facas e instrumentos de tortura. Não entendeu porque aqueles moços estavam degolando os amigos deles e talvez jamais imaginou o que havia no mundo pra trás daquelas cercas.

Os bifes inofensivos em variados tipos de bandeja, as caixinhas de nuggets coloridas, o mascotinho do peru da sadia, os saudáveis e super descolados filezinhos de salmão, até aquela carne moída linda no pastel de domingo são frutos de uma implacável indústria que mascara um processo de assassinato em algo trivial, como se o ato de comer carne não envolvesse sequer o derramamento de qualquer gota de sangue.

Portanto em cada bifinho à parmegianna que você come existe a história de um animal que nasceu ao lado de sua mãe, se esforçou e se concentrou para dar os primeiros passos e fez manha depois de ser amamentado. Talvez tenha rolado um pouco no chão e feito a feição boba que as crianças fazem quando brincam no tapete. Um animal que, pensando de maneira otimista, cresceu achando o sol lindo e os campos verdejantes como num paraíso. E que depois de um tempo foi assassinado e esquartejado brutalmente, teve seus pedaços espalhados em processos industriais bizarros antes acabar no seu carrinho de compras.

Eu não sou vegetariano, veja bem. Não estou aqui pelo discurso que vai fazer você parar de comer carne. Estou aqui para testemunhar que, pensando bem, comer carne não é tão legal assim. Nada que seja fruto de um matadouro pode ser bom. Foi então que comecei, com a ajuda de amigos, a achar uma maneira de me livrar da carne pedindo auxílio dos vegans presentes em meu círculo de amizades, talvez a melhor forma de contornar uma situação que, com o tempo, começo a perceber constrangedora e sinistra no sentido de que transformamos um boi morrendo degolado e pendurado num gancho enquanto esguicha sangue em algo totalmente comum, afinal, o Tony Ramos não fala nada disso no comercial.

Ótima escolha, dona Marcela. Aqui nossos bois morrem lentamente com requintes de crueldade e sofrem o suficiente para você ter no seu prato sempre uma suculenta e tenra carne (ele fala “carne” com um olhar semicerrado para dizer que é irresistível). Após uma vida inteira de confinamento, eles agonizam nas mais duras torturas e manipulações, desde pequenos, desde recém-nascidos praticamente (aqui, com um sorriso limpo no rosto). Portanto, da próxima vez, já sabe né, carne, é Friboi!

Sou um cara com gatos, com uma ex-namorada que compartilhou um bom passatempo que foi adaptado e cujo pai ensinou umas coisas talvez até sem querer. Um cara que quando coloca uma caixa de hambúrguer no seu carrinho de compras, pensa automaticamente nos seus gatos, na inocência dos olhares deles que estão envelhecendo e mantém toda essa simplicidade de crianças. Se você já teve um bichinho de estimação e o tratou como um bebê fofo mesmo depois dele atingir os 50 anos em “idade humana”, você sabe do que estou falando.

Posso assumir aqui que até conseguir encaixar gatos dentro do meu apartamento, não tive contato com muitos animais. Não tive as influências certas da primeira vez que tentei parar de comer carne. Olhar dentro dos pequenos olhos dos bichinhos que vivem comigo, me fez enxergar muito mais que a inocência deles. Me fez enxergar a inocência de cada bicho que morre nas mãos dessa indústria bizarra.

Talvez não seja preciso amar tanto os animais (embora eu acredite que esta seja a única forma de se tornar verdadeiramente vegetariano), mas você precisa começar a pensar direito se comer sangue e vísceras de animais assassinados de maneira estúpida é o tipo de mundo que você acredita.

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