buxim chei, cabeça no oco
hoje, quando do almoço, me veio ao sabido umas reflexões bem distintas, mas duma distinção de tão boa estirpe que, pelo contraste, deixaram meu prato mei destoante do curso, coisa que tive logo de parar a comida e dar espaço pros zás de visita.
de cia tinha lá uns miúdos de frango, macarrão de molho ralo, arroz do solto, feijão com pimenta do reino e umas azeitonas. apartano cada qual e já no rebuliço de fome das treze, cultivei o seguinte primeiro socorro, acho que pela fome em si, na barriga e da cabeça: uso as palavras, inclusive essas de pensar-sozinho, pra me esconder nas palavras ou pra me desvelar nas palavras? e mais: pq a gente usa palavras e não outra coisa, fumaça ou, vá saber, azeitonas?
naquele momento de pouco oportuno, mas de ócio retinto e por nada relevante (imaginava), dei de cutuque no meu arroz, no meu peitin de frango, barulho de mosca ali perto da cozinha, do nada me veio quem na ideia?, ele, o desgraçado, o homem que destruiu minha adolescência. ou mulher. mas ele, de pompa: o tractatus logico-philosophicus. ou witts. prefiro witts, é mais de casa, quase família.
a azeitona lá, estalano na boca. cenário de tensão.
nessa hora de neblina por não saber relação duma coisa com a outra e daquela com a essa e de tudo dessa banda com meu almoço (acrescento: de tão difícil conquista), tive o ímpeto encorajado pela razão assim de não comer mais, mas que perdurou pouco ao ponto de nada pois estava com fome. e daí pensei: até que ponto pensar na fome é linguagem e até que ponto necessidade? necessidade física ou necessidade de fome? fome necessária? fome?
fui no comendo sem nem delongas, no desespero.
quando acabou o franguin tinha ainda um pouco de macarrão e duas azeitonas de resto pra botar dentro. percebi de pronto que não saberia responder a questão da duplitricidade da fome até o fim do almoço e na hora então comi tudo de marcha única, pouco perto das ideias vinte vezes mastigações.
prato limpo, azo veio de quê deveria ter comido menos pois incompatível com minha atual consistência física e também pelo seguinte: pra fome metade que tive daquilo já bastaria pra se delimitar o necessário. daí que me veio uma conclusão sobre toda essa bagunça desgraçada:
linguagem é pra certo desvelo de instinto, indiscutível, mas num médio de controle a gente ultrapassa o necessário e se encanta, ingênuos, por criar fome onde não tem, tudo em matéria de prato e também de vida. a tal da fome criada pra servir de guia.
cada um sabe da sua fome, né. do tamanho da própria barriga.
agora, a sesta.
