instrução para escrever uma resenha
o importante é sentar.
deve ser alguma influência de ordem física, gravitacional mesmo: depois de alguns minutos sentado tudo se assenta numa disposição mais ou menos qualificável, doida por expressão. (ou não, pois ler o livro também é de requisito.) acho que depende muito da forma como se senta, do material da cadeira, do arranjo do ambiente, da quantidade de fome e do alimento disponível, além da personalidade do infeliz que sempre deixa todo o trabalho para a conturbação do final de período.
enfim, uma confluência de fatores que rodeiam essa coisa de se sentar, encarar o branco do computador (ou papel, pra quem é do demodê) e ser hipnotizado pelo pisca-pisca desesperador daquele traço faminto por umas colocações razoavelmente sensíveis e cientificamente apuráveis. um relógio digital de tamanho médio, devidamente posicionado frente ao sorumbático resenhista, também ajuda dum tamanho incontável, pois toda gente sabe o quanto algumas parcelas de tensão colaboram no parto. pressão como estímulo, de praxe e clichê.
claro, ainda existem aquelas almas mais brutas em matéria de moderno que teimam por papel e lápis nos exercícios acadêmicos, já foi apontado. nesse último caso indico uma combinação que funciona: sulfite 75mg; lápis 6b; velas; tuberculose. digo com conhecimento da causa já que fui partidário desses constrangimentos nostálgicos que só servem para auto-mistificação do processo comovente de se escrever com o peso de nove disciplinas nas costas (cuidados com os nls: só de aparência inofensivos).
depois é paciência. pode demorar um pouco, então se concentrar ajuda. ficar longe de celulares e computadores conectados à internet é essencial!, imprescindível!, requisito mínimo! se puder jogue todos esses demônios para fora de casa e comece a empreender uma jornada momentânea ao estilo ermitão de se encarar as excentricidades do diário sofrer acadêmico (mas sem necessidade de rabiscar paredes ou comer usando os dedos).
ah, e não começar um desapontamento de amor às vésperas da entrega também colabora. colabora em pencas, então fique ignorante de coração nessas horas de prenhepressão! na impossibilidade de se manter tangente (sempre os ultrarromânticos, bobocas que são, aduzem para as vantagens de se escrever de alma ferida. balela), é importante lembrar que existe certa tendência acadêmica que dispensa toda desilusão amorosa da equação do estar-universitário em tempos de conclusão do semestre, o que é cruel dada a quantidade de dinheiros que gastamos com café e remédios para gastrite.
(também existe a lenda de que, nos casos de extrema paixão frustrada, alguns professores mais sensíveis ao doído do platônico substituem a resenha por uma nota integral por pura solidariedade de condição, sem contar o abraço típico do coleguismo de gente sofrida e iniciada ).
então o melhor é sofrer, sim, mas sofrer enquanto se deposita grande parte desse amoroso abortado na interpretação do livro ou texto, qualquer que seja, mas sem começar a escrever rancores ou decepções de ordem mais pessoal. afinal você precisa ser aprovado, certo? certo?! força, amigo.
enfim, no final o importante mesmo é sentar. de resto, tudo se ajeita em base de fé ou vergonha na cara.
