De racismos sutis e colorismo.
Estou em um processo de descoberta. Vejam: sou de uma família extremamente miscigenada. Minha mãe é filha de um japonês com uma negra. E meu pai é filho de latinidades paraguaias com uma portuguesa. E, dos netos, eu sou a pessoa com mais feições negras. Meus avós, de qualquer um dos lados, sempre me chamaram de “neguinha”.
Mas eu? Bom, eu fui me dar conta de que era negra aos 27 anos, numa sessão de terapia, quando eu falava do hardcore como um ambiente que nunca foi muito favorável para mim e ela disse: “por quê? não tem negros no hardcore?”.
Tem sido um longo processo desde aquele momento. Porque “ah, Mariana, você tem a pele clara”, “ah, Mariana, você é a morena jambo”, “ah, Mariana, blá blá blá”. E desde que comecei a estudar colorismo tem sido uma jornada de autoconhecimento.
Reconhecer a minha vivência negra tem sido duro e doído. Porque, desde criança, na mesa da minha família, eu recebi piadas. Meu cabelo era ruim. Meu nariz era muito grande. Meu corpo não era magro como deveria ser. Minha irmã era bonita porque saiu mestiça. Mas eu saí pretinha. Meus presentes eram sobre poder me deixar um pouco mais branca.
Na minha família, eu era feia. Na minha escola, eu sofria um bullying sufocante. Na rua, a única coisa que elogiavam eram os meus quadris largos, porque eu era feia. Eu tinha cabelo duro e nariz largo.
A impressão que eu sempre tive é que, para além de ter que provar ser muito boa nas coisas por ser mulher, é que eu tinha que provar que eu era muito boa por alguma coisa que eu chamava de “não estar no padrão”. E que, hoje, só hoje, eu consigo nomear de racismo.
Nestes dias, a minha banda recebeu uma mensagem falando sobre sermos negros. E do quanto isso era importante. E do quanto era importante eu não ser uma garota padrão-roqueira à frente desta banda. Foi como um respiro. Foi como dizer, pela primeira vez, que importa eu poder ser quem eu sou. E este processo tem sido sobre não precisar mais me apagar. Mas é doído.
