Meu amigo, Zaratustra e nós.

Lembro de um dia, em uma supervisão de estágio, em 2012, em que um grande amigo tinha acabado de ler Zaratustra e falou de uma metáfora que estava fazendo sentido para ele que consistia em criar uma analogia entre a metamorfose de Zaratustra e a forma como nós adentramos e nos firmamos dentro dos espaços de militância.

Eu não sei muito bem o motivo, mas aquilo foi tão elucidativo para mim que nunca mais saiu da minha cabeça. E a cada momento em que me vejo próxima à militância e aos fazeres que são vistos como mais politizados socialmente, esta analogia me cai como uma luva.

Meu amigo se baseava nos estágios da metamorfose nietzscheana para falar de como vivenciamos experiências políticas.

O primeiro estágio da metamorfose é o camelo que leva tudo nas costas. E, então, doemos. Doemos pelo mundo, sofremos, sentimos não ter força alguma. E não fazemos nada. Seguimos carregando os pesos, sem ação, porque nos subtemos às opressões.

Até que nos revoltamos com o mundo. E viramos leões. Passamos a brigar com tudo e com todos. Uma luta um tanto ressentida com aquilo que carregou sobre os ombros e que é machucada. E por isso diz não a tudo. É uma luta sem propósitos. O leão apenas combate, mas não sabe exatamente o quê.

No momento em que enxergamos o outro, o mundo dele e o nosso mundo, como o habitamos, passamos a exercitar o lugar de criança.

Neste estágio da metamorfose, passamos a encarar a luta de uma forma um pouco mais alegre, um militar mais dançante, livre e criador, afirmando o amor nas suas ações. E entendendo uma luta com intencionalidade.

Olhar para esta metamorfose, assim, me fez olhar para mim. Para os meus estágios nela. Para quando sou camelo, quando sou leão e quando sou criança. E passei a observar meus colegas de lutas, também, a partir deste prisma.

Percebo, talvez, que, em tempos mais exaltados como estes que vivemos, há algo de leão tomando um espaço enorme. Muito se grita, muito se aponta, muito se fere. Mas não se tem objetivo, nem intenção. Talvez, até por isso, nos sintamos tão sozinhos. Porque, sem conseguir entender quem pode ser nosso aliado, entendemos quaisquer diferenças como inimigos.

Para poder adoecer menos, em militâncias, talvez seja necessário nos olhar. Entender como estamos. Como nos portamos. Para poder, enfim, olhar para o mundo.