O hardcore, a síndrome de impostora, o machismo e outras coisas

Estudo música desde os meus 13 anos. É, faz um tempo. 16 anos, pra ser mais precisa. Ainda assim, me vejo constantemente insegura e me repreendendo por acreditar que não sei o suficiente ou que não sou boa o suficiente. Apesar de tanto tempo de dedicação, tem algo em mim que me diz, toda vez, que não sou tão boa assim. E é sempre difícil me expor e me colocar à prova.

Muito tem se falado de “síndrome de impostora”. Particularmente, não gosto muito do termo por uma questão simples: quando desloco tudo isso para uma questão individual, eu esqueço do que fez com que o sujeito chegasse até ali: esqueço de sua história, esqueço da cultura onde foi criado e dos fatores históricos que fazem com que esta cultura existe. E patologizo uma questão que é social e vital.

Em outras palavras, eu poderia dizer que sofro da tal síndrome da impostora. Mas, acredito que o sentimento de ser uma farsa não é uma questão da minha auto-estima, é muito mais uma questão de mundo.

Gosto muito de um texto da Marina Castañeda, chamado “O Machismo Invisível”. Nele, a autora fala de certas masculinidade e feminilidade compulsórias que mantém um sistema que é machista.

Para mim, me sentir tão mal, toda vez, em relação à música tem a ver com isso: ainda que exista muito mais campos possíveis para as mulheres na música, nós vivemos um tanto de coisas que fazem com que achemos que não deveríamos estar ali.

Eu venho de um ambiente que é o rock. Seja no hardcore ou em outros lugares, vemos muito mais bandas com homens integrantes do que de mulheres. O que pode parecer muito pouco, guarda em seu discurso uma coisa muito importante: quando homens são majoritariamente protagonistas de um determinado universo, eu digo que o lugar deles é aquele, mas que as mulheres não podem ocupar aqueles mesmos lugares.

Recentemente, fui a um show do Dead Fish em que o público estava absurdamente violento e, ao comentar isso com um amigo, ele me disse que eu não deveria nem estar ali na frente, porque eu sabia que o público da banda era assim. Eu disse que não era assim e não tinha que ser assim. Eu não devo me privar de uma experiência por causa de uma ordem de coisas estabelecida.

E esta é só uma parte da coisa toda. (Como aquela metáfora brega da ponta do iceberg do inconsciente em Freud, talvez os caras dizerem que você não possa fazer algo seja só a ponta do iceberg desta problemática no universo em que vivemos).

Em termos claros: a ordem estabelecida das coisas no hardcore é a de que as mulheres são público. Não existem grandes produtoras mulheres, não existem bandas “cabeça” da cena com mulheres integrantes. Se você for branca, magra, tatuada e usar franjinha talvez caiba muito bem como a namorada do cara de banda. Mas não como uma pessoa que tenha banda, nem que possa bater de frente.

Com isso colocado, posso citar, por exemplo, que não importa o tempo que estudo música ou a intensidade que coloco naquilo que faço. 90% das vezes em que algum cara do hardcore chegou no meu inbox foi para dizer que eu era gostosa. Ou que tinha tesão na minha covinha. Ou que, talvez, quando eu não namorasse mais, seria muito legal se eu ficasse com ele. Ou para dizer que tinha tesão no meu pé, que tava aparecendo ali, na foto de perfil.

Não importa que eu faça música: o meu lugar é decorativo. É isso o que vocês me dizem a cada vez que estabelecem comigo este tipo de relação.

Vocês também me dizem isso quando duvidam, por exemplo, que eu entenda de música, que eu conheça bandas, que eu me interesse. É sempre uma dúvida, sempre um desafirmar aquilo que eu sei. Citando um exemplo: certa vez, me relacionei com um rapaz que frequenta os shows e tudo. Estava eu, cantando um som do Bullet Bane, e ele me disse que eu estava cantando errado e que eu não sabia inglês, porque o que eu estava cantando não fazia sentido. Duvidei de mim, fiquei quieta, fui olhar a letra. Eu estava certa.

Eu poderia passar horas (e talvez até passe por outros textos) falando de festivais, de acesso, da atenção que é dada a bandas de mulheres, do assédio que rola, das passadas de pano. Mas, por hoje, eu fico por aqui.

Este sentimento ruim de não pertencimento, de não ser boa naquilo que faço não é só permeado pela minha auto-estima baixa. Ele vem acompanhado de vocês me dizendo a vida inteira que eu não sei mesmo o que eu faço e me fazendo duvidar de mim mesma. A tal da síndrome da impostora não é nada além de um outro nome para ser mulher em espaços de dominância masculina.