O medo, o desejo e a revolução
Estou me sentindo cansada, como se a fadiga tomasse conta do meu corpo num jeito absurdo. E, nesta noite, eu tive um sonho que nomeou o que é esse cansaço todo: medo.
Entramos em uma paranóia. Existe um discurso x massivamente propagado em que devemos nos encaixar, caso não nos encaixemos, somos vistos como uma identidade estanque. Não importa o que se faça. Fomos identificados inimigos e assim seremos.
Percebi que eu estava adoecendo a partir do momento em que fui cobrada por um modo de ação que é muito próprio meu: o diálogo. Eu estava errada em dialogar, machista não deveria passar e blá blá blá.
A gente precisa, de verdade, complexificar este debate. E isso é por nós. Para que não adoeçamos. E, para isso, preciso falar de alguns pontos:
Não cobrar das pessoas aquilo que elas não podem oferecer
Há muitos anos, debatia uma questão com uma supervisora de estágio e falei que, na propaganda de um partido político conservador, apareceu uma mulher falando do papel da mulher numa perspectiva bem familiarista e do quanto aquilo me incomodava. A minha supervisora disse que eu tinha que aprender a olhar para as pessoas e para aquilo que elas poderiam me oferecer: um partido conservador não traria uma visão progressista.
Tenho visto uma expectativa bem grande sobre algumas pessoas que NÃO VÃO se posicionar da forma que queremos. Seja assim, seja assado. Como se fosse uma obrigação moral das pessoas se comportar e acreditar num mundo e em métodos de lidar com o mundo que sejam exatamente iguais às que escolhemos para nós.
E isso não faz o mínimo sentido. Um pacifista não vai ser combativo, por exemplo. E estamos falando de desejo, escolhas, singularidades e possibilidades de existência, neste caso. E as pessoas vão ser diferentes de nós, mesmo que possam caminhar ao nosso lado.
A lógica binária de funcionamento de mundo
Observando, conversando com amigos e estudando, percebi um certo movimento: passamos a observar as movimentações sociais a partir de uma lógica binária.
O que eu quero dizer com isso?
Um sistema binário funciona a partir de identidades que se relacionam de forma oposta (e que eliminam todo um amplo espectro de possibilidades que existem no entremeio dos extremos): homossexual/heterossexual; bom/mau; feliz/triste. Somos criados para enxergar o mundo dentro destes opostos. E levamos isso para o nosso olhar para a militância: só existe um jeito de fazer feminismo, se alguém não compactua com aquele jeito, ela necessariamente cai no ponto oposto (é machista, passa pano, não é confiável, etc, etc).
E isso adoece as pessoas, porque a militância partindo deste prima ignora a singularidade dos sujeitos.
Escolher porta-vozes
As últimas semanas me foram, muito sinceramente, insuportáveis. Gente chegando no meu inbox com print de denúncia, gente me cobrando posicionamento, gente me cobrando de excluir pessoas do meu Facebook.
Acalmem-se.
Quem se posiciona, quem fala é humano e, geralmente, só escolheu falar porque aquela questão o toca de uma maneira importante. Existe um abalo psicológico em se posicionar, em dar a cara para bater. Uma amiga disse que é como colocar um alvo no peito e dizer “venham”.
E, para além disso, não esperem a perfeição em quem se tornou uma referência para você. Essas pessoas cresceram e foram criadas no mesmo mundo que você. Vão falhar, vão falar bosta, vão te frustar, mas, ainda assim, apesar de tudo, podem fazer ressoar em coisas interessantes. Acreditem no que há de melhor nas pessoas.
Respirem
Para a análise bioenergética, quando a gente trabalha a respiração, a gente passa a entrar em contato com as nossas emoções. Talvez a pausa para respirar seja uma arma no caos: poder se olhar, entender o que as coisas causam em você, dar um tempo, desarmar.
Falo isso porque, em uma conversa com um amigo bem mais velho, ele disse que a nossa geração não tem sutileza, não tem delicadeza para lidar com o mundo. E é muito real. Meu medo é o de que a gente se arme tanto, mas tanto, que esqueça que é preciso dançar para que a revolução possa existir, é preciso que haja espaço para nós, para além de instâncias externas que esquecem que somos vida.
Enquanto as pessoas estiverem com medo de ser quem são, de se posicionarem, de existirem, a gente não tá sendo revolucionário porríssima nenhuma. Trabalhar com medo é só o espelho ao que o sistema faz. E ninguém nunca conseguiu quebrar nada fazendo exatamente a mesma coisa só que para o outro lado.
