Atari 2600: Retrogaming com estilo.

Não tem o que discutir. Se você gosta de video games e já passou dos 30, seus olhos brilham ao ver um Atari 2600.

Senhoras e senhores, eu sei que essa foto aí em cima dispensa apresentações. Mas se eu fosse me basear nisso, teria que parar na frase anterior, e esse seria o artigo mais inútil que você já leu sobre o Atari, então… continuemos.

Você conhece o Atari 2600. Aquele que te encheu de bolhas nos dedos e que disputava a TV com a novela no horário nobre. Que fazia sua avó contar que conhecia um moleque que ficou com a cabeça quadrada de tanto jogar (hoje você sabe que ela só queria que você largasse a tv pra poder ver o programa do Sílvio). Aquela caixa preta bonitona (ou se você é mais sortudo ainda, teve um igual ao da foto acima, com a frente imitando madeira) que dá de 10 a 0 em qualquer X-Box e Playstation de hoje em dia.

O que você talvez não tenha se dado conta é que o 2600 é o maior responsável pela existência até hoje da indústria de video games. Mais do que isso, fez a proeza de trazer pra dentro de casa um computador e torná-lo parte integral da rotina doméstica. Chupa, Bill Gates!

Um background rápido.

Fundada em 1971 por Nolan Bushnell e Ted Dabney, a Atari, Inc era um empresa que marcava presença apenas em máquinas de arcade, o nosso Fliperama. Lá por volta de 1975 resolveu levar os games para o entretenimento doméstico. Não foi o primeiro video game doméstico — essa honra cabe ao Odyssey, lançado pela Magnavox em 1972. A Atari criou em 72 um arcade chamado PONG (Telejogo, lembra?), que foi adaptado para um console doméstico e vendido exclusivamente pela loja de departamentos Sears (se você se lembra dela aqui no Brasil é porque tem mais de 30 anos). O sucesso foi tão grande que no Natal de 1975 pessoas passavam horas na fila para comprar o seu.

O próximo lançamento foi já em 1976. Se chamava Atari Breakout, e era uma variação do Pong. O curioso nesse console não foi o jogo em sí, que era basicamente o Pong virado de lado, mas o fato de um jovem engenheiro da Atari na época, um tal de Steve Jobs, ter projetado o circuito do jogo de maneira a economizar 50 chips em relação ao projeto anterior, o que lhe rendeu um certo prestígio, além de um generoso bonus em dinheiro. Mais curioso ainda é que mais tarde descobriu-se que outro jovem engenheiro, um tal de Steve Wozniak, foi quem realmente projetou esse circuito. Wozniak trabalhava na Hewlett-Packard e costumava passar à noite na casa de Jobs para jogar video games. Conclusão: Woz sempre foi o cara. (Tudo bem que o circuito acabou não sendo utilizado e foi trocado por outro por detalhes na produção, mas tem uma lição nessa história toda ☺)

Dominando a sala de estar do Tio Sam, o próximo passo seria lançar um console que não fosse só um jogo, como o Pong, e sim um aparelho que rodasse vários jogos.

2600: The Atari Age

Em 1976, Bushnell decide que o próximo passo era um aparelho que pudesse ser programável, possibilitando rodar todos os jogos da Atari até então. O Atari VCS (Video Computer System) aceitava cartuchos que traziam o código do jogo e eram carregados nos processadores do VCS. Pronto, não precisamos mais comprar um novo console para poder jogar um jogo novo. Bastava comprar o cartucho, o que era muito mais barato, para a alegria da recém-formada comunidade gamer dos anos 70.

Se pra você parece que estamos falando do 2600, é porque estamos. O código do projeto do VCS era 2600. Apenas com o lançamento de uma nova geração de consoles em 1982, o Atari 5200, é que o VCS passou a adotar o 2600 como seu nome oficial. Mas vamos deixar o 5200 de lado e focar no clássico.

O Atari VCS chegou ao mercado norte-americano em 1977 custando módicos U$ 199,00 — vou deixar pra você a tarefa de calcular quanto isso valeria ajustado para os dias de hoje. Usava um processador de 8 bits, mas que por motivos técnicos não chegava na capacidade da geração 8-bit como o Nintendinho ou o Master System, e 128 bytes de RAM.

CENTO E VINTE E OITO BYTES. Pra você ter idéia do que isso significa, só este texto, até o final desta linha, já ocupa 1141 bytes. Você já leu quase 10 vezes mais do que a RAM do 2600 conseguia armazenar de uma só vez.

Deixando a parte técnica de lado, temos que admitir: o 2600 é lindão. Eu pessoalmente acho mais bonita a versão de 82, inteira em preto, do que a original de 77 com o detalhe reproduzindo madeira, mas qualquer que seja a sua escolha, estamos falando de uma época que as coisas tinham identidade própria. Hoje você só sabe qual a marca do seu celular se for fuçar no aparelho, e olhe lá. Definitivamente, é uma arte perdida.

A arte perdida de criar jogos

O VCS/2600 foi lançado com uma expectativa de vida de 3 anos, mas durou muito mais do que isso. A lista de jogos é tão clássica que chega a arrancar suspiros hoje em dia: River Raid. Enduro. Pitfall!. Space Invaders. Keystone Capers. Adventure. Yar’s Revenge. Asteroids. Frogger. Frostbite. HERO. E a lista é longa…

Se você é um dos nossos, tem que concordar com uma coisa: Não se fazem mais jogos como antigamente. Sim, hoje temos muita coisa boa para PCs e consoles, mas são conceitos diferentes. Hoje você pode morrer à vontade em uma missão do GTA V, mas a certeza é que em algum momento você vai completar a missão e seguir em frente. É só carregar o último savegame cada vez que morrer e pronto.

SAVEGAME? HAHAHAHAHAHA, isso não existia! Nada se compara à angústia de explodir o seu avião naquele afunilamento depois de quase 15 minutos em uma única partida de River Raid. Ou à euforia de conseguir completar 5 dias de corrida em Enduro, tendo que sobreviver àquela maldita fase da neve. Ou ao desespero de não saber se Pitfall! realmente tinha final ou não (não tinha). Ou…

Enfim, eram outros tempos. E se ainda não te bateu aquela nostalgia ao relembrar alguns destes jogos, quero ver você se segurar ao ver lalgumas destas telas:

River Raid
Não sei o que me deixava mais tenso, explodir o avião nas paredes ou atirar num helicóptero e acertar a bomba de combustível quando seu tanque já estava quase zerado.

Pitfall!
Pular os jacarés já era difícil, mas conseguir evitar aquele maldito escorpião era impossível!

Enduro
Neve. Neblina. Aquelas curvas miseráveis de se fazer. Aí você pena para ultrapassar 10 carros e quando bate no décimo primeiro, 50 te ultrapassam em 7 segundos.

Keystone Kapers
Todas as vezes que eu vou ao mercado eu fico com vontade de pular por cima dos carrinhos de compra. Não dá pra evitar.

A lista é imensa. Mas eu deixei pra falar de um jogo em especial agora no final.

WTF, Atari?

1982 foi o ano em que fui ao cinema pela primeira vez. E.T.: O Extraterrestre chegou aos cinemas brasileiros em dezembro, 6 meses após ter sido lançado nos Estados Unidos. Não é preciso falar muito sobre o clássico do Spielberg, mesmo que você ainda não tivesse nascido nessa época.

Com o sucesso do filme, o então CEO da Atari, Ray Kassar, faz um acordo com a Universal Pictures para produzir um jogo baseado no filme. A compra dos direitos de uso foi de U$ 20.000.000. VINTE MILHÕES DE DÓLARES. A intenção era aproveitar as vendas de natal de 1982, o que deixava apenas um espaço de 5 semanas para que o jogo ficasse pronto. Kassar entregou a tarefa à Howard Scott Warshaw, um pródigo designer de jogos/programador da Atari que criou para o mesmo 2600 o jogo Yar’s Revenge, um dos maiores sucessos do console. Warshaw era o garoto prodígio da Atari, e aceitou o desafio. O jogo foi lançado para o Natal de 82, e foi um sucesso, vendendo em pouco tempo 1.5 milhões de cópias, das 4 milhões produzidas graças à expectativa devido ao filme.

Só que o jogo era HORRÍVEL.

Mas que diabos era isso, Atari?

Em pouco tempo, começaram as reclamações de que o jogo não fazia sentido. Jogabilidade péssima, telas incompreensíveis, e não dava para mover o pobre E.T. por alguns segundos sem cair em um buraco e nunca mais sair de lá.

O lucro incrível da venda dos cartuchos não serviu para muita coisa quando as reclamações começaram a virar pedidos de devolução. 3.5 milhões de cópias foram devolvidas pelos vendedores, levando a empresa para o buraco.

Resultado? A Atari, que já estava passando por uma crise graças a problemas de planejamento, não teve como aguentar a catástrofe que o jogo se tornou. A empresa foi dividida e vendida em 1984, dois anos após o lançamento do jogo.

Warshaw entrou para a história como o game designer que arruinou a Atari. Em alguns meses a equipe, que chegou a ter 20.000 funcionários, empregava pouco mais de 2.000 pessoas. Warshaw ainda ficou na empresa, mas com o fim da Atari, abandonou a carreira de game designer, e hoje trabalha como Psicoterapeuta na região do Silicon Valley.

O fracasso do jogo de E.T. ainda foi o responsável por uma das maiores lendas urbanas dos video games. Com milhões de cópias do cartucho empilhadas sem utilidade, a empresa teria tomado a decisão de literamente jogá-las no lixo. A cidade de Alamogordo, no Novo México, possuia um imenso aterro sanitário, e em 1983 começam a surgir relatos de que uma quantidade imensa de caminhões carregando consoles e cartuchos da Atari teriam sido avistados. Os boatos sugeriam que todo o estoque acumulado da empresa teria sido enterrado sob toneladas de cimento. Logo o assunto se tornou uma lenda entre os fãs de games em geral, e o depósito de Alamogordo sempre recebia curiosos dispostos a encontrar o local exato do “enterro” da Atari, na esperança de não só comprovar a história como conseguir algumas cópias do jogo e de qualquer outra coisa que a Atari tivese jogado por lá.

A especulação em torno dessa história durou até 2014. Zak Penn, roteirista que trabalhou em filmes como Os Vingadores, X-Men 2 e O Incrível Hulk, dirigiu um documentário que acompanharia a escavação desse aterro em busca da verdade sobre o assunto.

O documentário, Atari: Game Over, foi lançado em 2014 e você pode assistí-lo (legalmente) em um certo serviço de video por streaming bem popular na internet. Só que eu não vou ser chato de te contar o final dessa história. Afinal, se você chegou até o final deste artigo, com certeza vai querer ver com os próprios olhos e sem spoilers.


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