Carta para um passado

São Paulo, 2015

Querido lampião,
Redijo esta carta com o intuito de lhe informar sobre as novidades dos dias de hoje. Mas primeiramente, desejo expressar minhas sinceras desculpas por o ter substituído — porém a escolha não era minha, nossos gestores queriam isso. Era mais barata, eficiente e convenhamos, menos perigosa; havia chegado a minha hora de brilhar. Mas não fique triste, foi você quem começou a irradiar luz as cidades à noite, vida!

Quando a troca estava sendo feita gradativamente, consegui conhecer alguns de vocês, por isso tenho tanta admiração — Consigo inclusive sentir a nostalgia que agora acalenta meu corpo inanimado, por um tempo que não volta mais. Tiveram até um famoso nomeado com seu nome — nesse aspecto não acredito que tenha a mesma sorte, nunca deparei com alguém que se chamasse “poste de luz”. Mas não estou aqui para falar do passado, mas sim do meu presente. Estamos sendo usados de todas as maneiras nos dias de hoje, foi proclamado até um ano em nossa homenagem! Sim, 2015, o ano internacional da luz.

Viramos uma forma de medida de tempo, propagamos informações em questão de segundos com a ajuda de um fio chamado “fibra óptica”, e sim, continuamos a dar luz para a escuridão da humanidade. Nossa mãe, o sol, também continua a reger nossos princípios, e afetar profundamente os humanos que ajudaram a nos difundir mesmo quando o sol se esconde. Não querendo me gabar mas, sinceramente, sem nós eles não seriam nada.

Devido aos meus dias parado, acendendo e apagando diariamente, percebi como o tempo e nós, somos diretamente ligados. Os humanos que criaram o tempo, claro, mas a partir de nós. Sem o sol e a luminosidade, o que seria das colheitas, dos acontecimentos, da vida? Principalmente agora, que a humanidade vive regida disso. Horários marcados, encontros, “aproveitar ao máximo”, eles dizem. Afinal a vida é curta, a não ser para mim, um poste de luz. Mas pode ser que meu dia chegue como o seu chegou, meu amigo lampião.

Beijos de luz de seu admirador,
Poste de luz.

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