#dia14 — As lembranças que eu sempre quero ter

Queria fazer um exercício de memória e voltar há alguns anos atrás, quando eu era uma criança pequena e sem preocupações, além de qual presente ia pedir pro papai Noel no natal.

Pois bem, quando eu tinha entre cinco e seis anos, lembro que meus pais trabalhavam fora. Minha mãe saía todo dia bem cedo, só voltava no fim da tarde e meu pai trabalhava no turno da noite, então era com ele que eu e meu irmão mais novo ficávamos até o meio da tarde, quando ele tinha que sair.

Guardo muitas lembranças dessa época e me lembro bem da rotina que passávamos todos os dias com meu pai. Ele que me arrumava pra ir pra escola de manhã, mas minha mãe, sabendo que ele não levava muito jeito com roupas, sempre deixava tudo pronto no pé da cama. E quando meu pai me acordava, a briga era só pra que eu tirasse aquele pijama quentinho e colocasse a roupa que minha mãe tinha deixado.

Quando voltava da escola, já sabia que meu pai estaria preparando nosso almoço. Quase sempre era macarrão com queijo, uma especialidade dele, só que algumas vezes o macarrão queimava e aí tínhamos que ir almoçar na minha tia, nossa vizinha.

Depois do almoço, ele me levava pra tomar banho e colocar uma roupa limpa, aquele era o aviso de que em pouco tempo ele precisaria ir trabalhar. Daí, meu pai preparava um chocolate quente pra gente, que eu só aprovava se tivesse com bastante espuma e ainda fazia questão de tomar com canudo.

Espuma = Sucesso

Então, ele colocava eu e meu irmão pra dormir e saía, me lembro que ele sempre esperava o suficiente pra se certificar de que tínhamos dormido mesmo. Ele só não contava que nessa época, tinha um programa de desenhos na band, que passava toda tarde e eu era viciado. Era o Band Kids, apresentado pela Kira, meu primeiro amor de infância.

Nos embalos das tardes na band

O meu plano era sempre o mesmo, fingir que tinha dormido até meu pai sair de casa, depois correr do quarto pra sala, ligar a TV na band e começar a minha maratona diária de Dragon ball Z, Cavaleiros do Zodíaco, Bucky e outros. Lembro que eu ficava muito bravo quando nessa de fingir que tinha dormido, eu acabava dormindo mesmo e perdia um dia de episódio dos meus desenhos favoritos.

Quando o Band Kids acabava, eu tinha que correr de volta pro quarto e fingir que tava dormindo de novo, porque eu sabia que minha mãe estava prestes a chegar e meu plano perfeito corria o risco de ser descoberto.

Algumas vezes minha mãe chegava mais cedo ou então o band kids demorava um pouco mais pra acabar. Nesses casos eu tinha alguns segundos entre ouvir a tranca do portão abrindo até minha mãe entrar pela sala. Eu sabia que não dava tempo de desligar a TV e voltar pro quarto, então eu incorporava um verdadeiro ator, mestre na arte do improviso e criava cenários hipotéticos na minha cabeça.

Ou deixava a TV ligada e corria pro quarto dizendo pra minha mãe que não sabia quem tinha ligado aquele aparelho ou desligava a TV e fingia que tinha dormido no sofá. Tudo isso porque no auge da minha meninice, a adrenalina estava em burlar as leis da soneca da tarde, sempre com o plano ideal que eles nunca descobririam.

De qualquer forma, a desculpa nunca era muito aprofundada, porque eu já emendava que tava com fome e esse era o gatilho pra ir ajudar minha mãe a preparar a janta.

Adorava quando ela escolhia fazer sopa e cabia a mim a árdua tarefa de ralar a cenoura. Pegava uma cadeira da mesa, subia nela com o ralador em uma mão, a cenoura na outra e começava o trabalho com o maior empenho do mundo. Hoje me considero um exímio ralador de cenouras graças a esses tempos. Obrigado mãe.

Tempos inclusive, que não voltam mais…

E tudo bem que não voltem, cada momento da vida foi feito pra ser vivido uma vez só mesmo. E aí, cabe a nós guardar, associar isso com um monte de sensações diferentes, referências visuais ou sensoriais e lembrar.

Garanto pra vocês que nunca vou comer um macarrão com queijo sem lembrar daquelas tardes ensolaradas, chegando da escola com a testa suada, morrendo de fome.

E é engraçado como algumas dessas coisas ficam, chocolate quente pra mim até hoje, só se tiver espuma. O canudo eu resolvi deixar de lado, afinal a vida adulta ainda não tá preparada pra tanto saudosismo.

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