#dia9 — O olhar de um gringo sobre o Brasil e os brasileiros

Como está o nosso copo?

Hoje conheci um canadense muito gente boa.

Estávamos conversando sobre os motivos que o levaram à sair do país de origem dele e vir pro Brasil e quais eram as suas impressões, até então. Ele começou a me contar como haviam sido seus últimos anos de vida no Canadá. Que ele se formou na faculdade em Ottawa e tinha uma vida muito boa lá. Havia aberto uma empresa na área de moda com alguns amigos e os negócios iam muito bem. Ele poderia simplesmente ter seguido o caminho natural das coisas, expandir o empreendimento, ganhar muito dinheiro e curtir a vida sem maiores preocupações ou arrependimentos.

Mas aí, ele resolveu largar tudo o que tinha construído até então, deixar família e amigos lá e vir pro Brasil.

Quando perguntei o que tinha feito ele tomar essa decisão, ele me respondeu:

“The call”.

Pensei sobre aquilo por alguns segundos e não estando totalmente convencido, perguntei que tipo de chamado era aquele. E ele de forma muito transparente, me disse que tinha consciência de que as pessoas de onde ele vem são muito privilegiadas e por causa disso estão acostumadas a não ligar muito pro que acontece no resto do mundo.

“They don’t give a shit”.

E isso era algo que o incomodava bastante, afinal por estar nessa condição de privilégio, ele queria contribuir de alguma forma pra fazer desse mundo, um lugar melhor pra todas as pessoas que vivem aqui, independente de raça, cor, religião ou nacionalidade.

Hoje ele sabe de alguns dos nossos grandes problemas, desde a falta de saneamento básico e água encanada, até a corrupção que nos atinge há um bom tempo. E mesmo que não tenha vivido nenhum desses problemas na pele, ele se sentiu parte disso, se sentiu responsável, como ser humano, por pessoas viverem nessas condições e por isso, atendeu o tal chamado.

Meu novo amigo gringo sabe que não é o salvador da pátria e tem humildade suficiente pra reconhecer isso, mas o ponto alto da nossa conversa não foi esse. Ele me contou que o motivo principal dele ter vindo pro Brasil, foi que aqui, ele sentia que podia acreditar nas pessoas. Apesar de todos os nosso problemas, ele enxerga isso como uma grande oportunidade de mudar as coisas, e a vontade dele, é estar aqui, fazendo parte dessa mudança.

Em meio a todo essa turbulência política e econômica que estamos encarando, depois de se deparar com tantos problemas e com frustrações atrás de frustrações. Talvez tenhamos parado de olhar pras nossas forças, de reconhecer no que somos bons como povo e começamos a enxergar só as nossas fraquezas. Passamos a olhar o copo pela lógica da escassez, como meio-vazio, e pra mim, foi animador ver que depois de tudo, as pessoas ainda conseguem ver o nosso copo pela lógica da abundância, como meio-cheio.

Faremos um projeto juntos pelos próximos 2 meses, mas mesmo que não fôssemos mais nos encontrar, eu já seria muito grato pelos aprendizados que essa nossa conversa me propiciou hoje.

Seguimos.