Os caminhos pra além da faculdade

Fonte: Pixabay

Há 6 meses eu estava na faculdade.

Eu, na faculdade que sempre sonhei em fazer, na universidade que consideram uma das melhores do país.

Eu, filho de pais nordestinos, que por falta de oportunidade não terminaram sequer o ensino médio.

Eu, que morei a vida toda na periferia da cidade, estudei em escola pública e me acostumei a passar 2 horas no caótico transporte público pra chegar em casa.

Eu, que passei dois anos vivendo quase que mecanicamente, conciliando trabalho e cursinho porque de outra forma, não haveria chance de chegar lá.

Eu, que via nessa mesma universidade a oportunidade de materializar um sonho que sempre me pareceu distante.

O sonho dos meus pais, e que em algum momento passou a ser o meu também.

Há 6 meses eu estava confuso.

E não entendia o porquê, afinal eu estava no caminho, no caminho de algo que sempre sonhei pra mim ou que me disseram que eu deveria sonhar.

Na lógica linear de se pensar a vida, eu estava progredindo.

Já até conseguia visualizar meu próximo checkpoint no horizonte, provavelmente um estágio com um salário bacana em algum banco.

Pra quem veio de onde eu vim, o que mais eu poderia querer?

Na família, eu era uma espécie de amuleto, talvez um broche que gostariam de guardar numa caixinha e só tirar de vez em quando pra polir e se certificar de que estava tudo nos conformes.

Um símbolo de que o sucesso chegaria em breve.

E inconscientemente eu lidava com toda essa expectativa, afinal eu não podia falhar.

Muito esforço havia sido empregado pra que eu chegasse até ali, naquele lugar de tão raro privilégio.

E então, há 6 meses eu tive medo.

E não foi pouco o medo que tive, medo de olhar pra dentro de mim e enxergar algo que eu não queria, algo que eu não podia me dar ao luxo de enxergar.

Medo de encarar meus monstros e descobrir que a história que eu me acostumei a escutar, não era de toda verdade.

Foram dias difíceis.

Era como se eu tivesse preso vendo o filme da minha vida em looping, narrado pelo Bial, o que só tornava os meus dilemas ainda mais complexos de serem entendidos.

Por outro lado, eu fazia muitas coisas, tentava ocupar meu tempo e acreditar que em algum momento a crise iria passar e a faculdade voltaria a fazer sentido.

Assim como tinha feito a minha vida toda até ali, assim como deve fazer sentido sempre, afinal é isso que as pessoas fazem.

Mas a crise não passou.

E cada vez mais eu sentia que aquele caminho reto, linear da minha vida estava se desmanchando e meu próximo checkpoint já não era nem visível.

Há 6 meses eu tranquei a faculdade.

E tive que lidar com o ônus dessa minha escolha.

Lidar com a quebra de toda a expectativa que meus pais e familiares nutriam, com a reação dos amigos que cresceram junto comigo e com o julgamento de outras tantas pessoas que me acompanhavam e não viam boas perspectivas, na vida pra além dos checkpoints.

E desde então, me permiti experimentar outros modelos.

Passei a olhar muito mais pra mim e pro estilo de vida que eu queria levar.

Olhei pro meu corpo e encontrei na relação com os alimentos um caminho pra me manter sempre bem e disposto.

Olhei pra minha mente e comecei a vasculhar as minhas forças e as minhas fraquezas, o que me interessava e onde eu poderia dedicar mais tempo e atenção.

Olhei pro meu espírito, me reconectei com aquilo que a loucura da rotina tinha me privado e passei a entender que a vida, assim como tudo, é um processo constante de recomeços.

E hoje, 6 meses depois, tenho clareza que só conseguirei contribuir com o meu melhor pro mundo, se esse tripé permanecer em equilíbrio.

Há 6 meses eu assumi o protagonismo da minha história.

E acredito que a faculdade é, e vai continuar sendo uma forma muito bacana de fazer isso.

Só não foi pra mim.

E poder experimentar esses caminhos alternativos sem carregar conosco o peso das comparações, dos julgamentos e das expectativas externas, deveria ser também, algo natural.

Porque não somos todos iguais, então não faz sentido acreditar que todos devemos seguir caminhos iguais.

A riqueza humana está justamente nas singularidades de cada um.

E considerar que existem inúmeros caminhos que potencializam essas singularidades, é o primeiro passo pra uma sociedade mais inclusiva, diversa e inovadora.

Abaixo deixo uma poesia espanhola que pra mim, resume bem essa percepção sobre caminhos.

“Caminhante, são teus passos
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
mas sulcos de escuma ao mar.”

Antônio Machado.

Há 6 meses eu descobri qual não era o meu caminho, e agora o faço ao caminhar.


Seguimos.

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