Por que eu tô distribuindo meu corpo?

A voz da sinceridade grita dentro de mim dizendo que é carência.

Mas dói no ego assumir esse tipo de coisa, não?

Eu não consigo responder pra mim o que exatamente estou procurando toda vez que abro o aplicativo de caçar rapazes e rolo as fotos sem parar. E faço isso muitas vezes. Perco horas, às vezes tardes inteiras. A busca não acaba e “será que to doido?”

Mas não, a gente inventa alguma desculpa bem desconstruída e manda ver, bola pra frente. É normal, não é? Todo mundo faz. Olha só, aquele DJ gato que pode ter quem ele quer também usa, então qual o problema?

Mas é que não tem problema mesmo. Ou tem? Não sei. Nada parece errado quando aquele cara que é tudo o que eu sempre quis me responde no app e diz que tá disponível pra vir aqui em casa. É com sorriso largo que eu tomo banho e repito pra mim mesmo: viu só? E você ainda ia deletar o Grindr.

É que eu (a gente) tendo a achar que tudo tem que dar certo sempre e, enquanto tá dando, não mudo a estratégia. O problema é ganhar um não, ser bloqueado, ser ignorado, ser invisível. Aí eu problematizo tudo, quero filosofar com os amigos e tirar minha foto de rosto do radar humano.

Que criança besta eu sou aos meus 25. Então se não querem brincar comigo eu guardo a bola e vou embora? É tão verdade, quanto ridículo. Sou assim mesmo. E dane-se que eu guardo a bola. Já estão brincando com a de outro mesmo.

E existe justificativa pela procura do prazer? Transar por transar já não é o bastante? Tá tão na moda a gente fazer o que quer e do jeito que quer, que doutrinar a mente naquele velho estilo do vamos primeiro sair pro cinema parece um tédio sem fim. Nesse mundo dos apartamentos divididos com amigos e da independência familiar, todo o flerte de outrora soa como uma perda de tempo sem tamanho.

Se o fim é a cama, então por que perder tempo com os meios?

Tanta objetividade tirou, sim, o significado da coisa.

É raro aquele envolvimento em que o prazer transcende a carne. Aliás, tá raro até o próprio prazer.

Contudo, ele rola. Once in a blue moon, eu vou pra cama com um carinha que faz o 4g valer o preço. E é com base na exceção, não na regra, que eu não mudo de tática, não me movimento e continuo em frente motivado por aquela lembrança boa que já quase faz aniversário, torcendo pra rolar de novo. Só que não com aquele cara, porque com ele eu não falo desde que saiu daqui de casa.