Especiaria Rara

Ao aprender andar de bicicleta, ainda pequenos, nos deliciamos com cada queda ou machucado que ganhamos após várias tentativas para andar alguns metros de felicidade. O sorriso estampado no rosto, mesmo com gotas de sangue nas pernas e braços, é como a plenitude dos raios de sol pela manhã que nos revigora sempre. Essa batalha dura alguns dias, semanas ou mesmo meses, mas não paramos até poder dar uma volta no quarteirão e poder mostrar nosso sorriso em forma de gratidão por estar andando de bicicleta. Gratidão pura e de extrema ternura encontrada no sorriso singelo ou no brilho do olhar, por termos alcançado nossa tão esperada vitória.

Crescemos e as quedas vão se tornando mais raras, assim como os tão sonhados metros de felicidades que conquistávamos. Crescemos não para nós mesmo, mas para o que nos ensinaram que era o correto. Assim o desejo e a busca incessante pelo o que nos fazia acordar cedo e pegar a nossa velha bicicleta vai desaparecendo aos poucos. Crescemos e deixamos de praticar nossas brincadeiras para nos tornamos intensos sonhadores do amanhã.

Em nossa atualidade, onde quer que vamos, encontramos seres sonhadores e que buscam ininterruptamente os sonhos do amanhã. Sofremos, antecipadamente, diariamente por coisas que ainda não se tornaram realidade, choramos por despedidas que não ocorreram ou ficamos zangados ao esperar por uma resposta ainda não dita.

O sorriso de menino então amadurece para sorriso de homem com o passar dos anos. E tudo que era simples e bonito se torna um quebra-cabeças. Mudamos nossa visão de vida, o sorriso antes fácil de se conseguir se torna difícil a cada dia que se passa e nos tornamos mais intrínseco a sociedade que nos molda da maneira que ela nos quer. Reconhecer a gratidão não é mais fácil como antes.

A nossa vida chega a um ponto que nós mesmo não conseguimos nos reconhecemos. A troca constante de facetas para agradar a multidão em nossa volta se torna tão comum que nossa identidade natural se encontra perdida em nossa própria confusão.

Sinto que a maioria das pessoas perderam seu menino que adorava andar de bicicleta. Eu sinto que aos poucos estamos sendo tomado por impulsos que a massa nos impõe, e o pior acreditamos que é aquilo que queremos para nós mesmos, e vivemos sem grandes indagações. Hoje, mais do que nunca, eu sinto que a gratidão se tornou como raras especiarias onde poucas pessoas a conhecem e sabem como usa-la.