Afetos do mundo

Sentir, ter a sensação de; perceber por meio dos sentidos, como define o dicionário. Ação integradora da totalidade da vida. Como nos sentimos? O que sentimos diante da cada situação cotidiana, corriqueira, onde enxergamos apenas a ponta do iceberg? Ignoramos que cada respiração condensa todo o risco e possibilidade da existência de cada um, passamos tudo pelo filtro automático “simplificador”, que nos “poupa” da grandeza e da profundidade de tudo, das coisas mais complexamente simples que sentimos durante toda a vida a cada pequeno momento.

Não percebemos os afetos que o mundo levanta contra nosso corpo e mente, nos julgamos donos de nós e de nossas decisões a níveis de consciência que não possuímos de fato, ao dizer — Eu sou assim pois, na minha vida passei por isso, ou aquilo, porque tive experiências assim e sofrimentos desse modo. Optei por esse caminho por causa de um livro que li, ou um conceito que descobri— Tais fatores compõe os afetos do mundo, mas jamais representam a sua totalidade, esses afetos fogem a nossa consciência deles, mas nos moldam e alteram nossos caminhos mesmo assim, a um nível inimaginável.

Em cada decisão que tomo, no momento onde analiso o que sinto, me pergunto diversas vezes se a forma como meu corpo e mente interpretam os infinitos afetos, representa a sua totalidade, ou ao menos algo perto dela e me decepciono todas as vezes, pois sei que não, não posso mensurar absolutamente tudo que sinto, na verdade tomo muito pouca consciência desses estímulos que me alteram a cada segundo.

Me lembro da fala de Heráclito de Éfeso — Nós não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros — Não parece fazer muito sentido que a cada piscar de olhos, a cada lampejar de pensamento, descubramos uma nova parte de nós, ao passo que nos esquecemos de outras, que precisam ser esquecidas.

Todos os dias enquanto o mundo me bombardeia com toda sorte de estímulos, me dando e retirando energia, aumentando e diminuindo minha potência de agir, há momentos em que me sinto pleno e outros onde a tristeza se senta ao meu lado, em alguns vejo-me desencorajado diante da vastidão de tudo e, em outros me sinto grato por ser parte integrante do todo. O sentir nos define, mesmo que não tomemos consciência de tudo o que é sentido.

Sei que tomando consciência ou não dos afetos do mundo, são eles que me moldam, e quando se manifestam através de mim, também modificam o mundo a minha volta através da minha vida, também sei que daqui até o fim da jornada, terei que ser constantemente apresentado a mim mesmo — Muito Prazer, eu novo!