O medo do fantasma

Já diziam nossos antepassados e os que vieram antes deles: tudo tem dois lados. No entanto, é comum que um desses lados não seja nada agradável de se lidar. O surgimento da internet trouxe consigo novas formas de se relacionar. Longe dos possíveis desconfortos que poderiam surgir em uma conversa frente a frente, por detrás de uma tela, era possível até mesmo ao mais tímido dos seres discorrer com desenvoltura sobre os mais diversos assuntos.

Atualmente, a socialização por meios digitais cresceu exponencialmente através de redes sociais, de aplicativos de troca de mensagens, fotos e vídeos, enfim, de um sem número de maneiras de se relacionar online sem ter, necessariamente, que se colocar diante de outra pessoa. É exatamente nesse ponto que surge o lado ruim proveniente da influência de toda essa revolução tecnológica nas interações humanas. Do outro lado da tela, as pessoas passam a sentir cada vez menos a necessidade de concluir suas relações frente a frente. Para que me expor a uma situação constrangedora pessoalmente se posso simplesmente espaçar minhas mensagens, não responder ou, quem sabe, apenas sumir? Essa não é uma pergunta que as pessoas se fazem deliberadamente nessas situações, mas a atitude, ainda que involuntária, é bem recorrente nos dias de hoje e tem sido chamada de ghosting.

O termo ghosting tem origem na palavra ghost, que significa fantasma. E aqui tudo pode ser encarado de maneira bem literal. Após alguns encontros e muitas vezes sem ter dado indício algum de que algo estivesse errado, o praticante de ghosting pode, tal qual um fantasma, sumir da vida do outro, quer seja ignorando suas tentativas de contato, quer seja excluindo ou bloqueando o outro nas redes sociais e aplicativos que costumam compartilhar. Sem ter um desfecho para aquela relação que julgava estar progredindo, cabe ao outro lado o fardo de tentar entender sozinho o que se passa. Nesse ínterim, o indivíduo que pratica o ghosting se torna, de fato, um fantasma na vida do outro, na medida em que sua figura passa a ser tema recorrente dos pensamentos daquela pessoa que, por sua vez, anseia por respostas as quais, possivelmente, não irá obter.

Como visto, há muitas formas de se praticar o ghosting, mas talvez a pior delas seja o silêncio. O silencio é, por vezes, uma forma mais contundente de se comunicar do que as palavras em si. Quando uma das partes opta por sumir, ainda há explicações mais amenas as quais a outra parte pode se apegar. Pode ter ocorrido algum imprevisto que o fez desaparecer, por exemplo. Porém, quando o outro está ali e, ainda assim, opta por não mais dar ao outro a dignidade de uma resposta, torna-se difícil atribuir explicações amenas ao ato. Embora contraditório, há nesses casos um intertexto presente no silêncio. Uma camada implícita de informação, cujo entendimento é bem claro para aquele que opta por silenciar, mas que se apresenta como uma densa névoa de incertezas para o interlocutor que foi abandonado no vazio. Numa época em que os aplicativos nos mostram automaticamente que nossas mensagens foram entregues, ver os dois traços azuis que indicam a leitura se acenderem sem virem acompanhados de uma resposta pode ferir profundamente. É como se o outro estivesse assinalando um checklist e nos dizendo sem fazer uso de palavras: Ok, mensagens lidas e devidamente ignoradas ✔ ✔. Nada foi dito, no entanto, tudo está ali. O outro que lide com isso.

Sendo assim, nos perguntamos: É possível lidar com algo do tipo? É possível, mas o processo, inevitavelmente, envolve sofrimento e demanda mais tempo que o comum. O término de uma relação é sempre doloroso, envolve a ruptura de um laço anteriormente forjado, mas é certo que a recuperação é mais rápida quando há entre as partes envolvidas a exposição dos motivos que levaram aquele desfecho. Ao optar por se calar ou sumir, uma das partes (conscientemente ou não) se acovarda tentando evitar o próprio sofrimento e, muitas vezes, se ilude ao dizer para si mesmo que a ausência de explicações poupará o outro da dor advinda da rejeição. É esse detalhe que torna a prática do ghosting tão cruel. É impossível poupar o outro da dor, ela inevitavelmente virá, com o agravo de que sem uma resposta clara, cabe ao outro formulá-las por si próprio. Algo que demanda tempo e gera um extenuante desgaste mental.

É possível dizer que o surgimento do ghosting não é apenas consequência do fato de ser mais fácil abandonar o outro sem explicações quando se usa um meio digital. Pensar no fenômeno apenas sob esse aspecto é simplificar demais. Há, possivelmente, inúmeras ramificações que contribuíram para o surgimento dessa prática. As redes sociais modernas e os aplicativos de relacionamento tornaram a distancia um aspecto relativo nas relações interpessoais. Porém, simultaneamente, a ausência da presencialidade nesses meios promove, de certa forma, uma espécie de “coisificação” dos indivíduos, uma vez que as pessoas interagem apenas com as imagens e os aspectos que o outro permite que sejam conhecidos. Em outras palavras, quando se retira o aspecto físico de uma interação social, ao passo em que se coloca uma tecnologia para intermediar esse contato, muitas vezes se torna mais fácil encarar o outro como um objeto passível de ser descartado do que como o ser humano complexo que de fato o é. Basta ver como nos apresentamos através de tais meios. Como que em uma vitrine, expomos o nosso melhor, uma edição de nossos melhores momentos cuidadosamente pensada para ser atrativa. Sem nos darmos conta, vendemos o nosso produto. Entretanto, quando eventualmente somos descartados ou substituídos, ainda nos entristecemos por pensar que fomos tratados como objetos e não como pessoas. Chega a ser irônico.

É bem possível que você, querido leitor, já tenha interpretado ambos os papéis em sua trajetória. O ato de sumir e de ver os outros sumirem se tornou algo assustadoramente corriqueiro. É mais fácil encontrar pessoas em nossos círculos que tenham passado ou praticado isso, do que aquelas que não o tenham. Analisando em retrospecto, posso afirmar que eu mesmo já o fiz, mesmo que sem me dar conta. Ora fui o algoz, ora fui a vítima, e quando digo isso me refiro a todo tipo de relacionamento, mesmo as amizades. Mas agora, ciente das consequências dessa prática, ao menos tento me policiar para não deixar ninguém no escuro, mesmo que o inverso vez ou outra ainda me aconteça. Quando sentimos na pele as consequências emocionais da ausência de um desfecho conseguimos nos colocar no lugar do outro com maior facilidade.

Por mais breve que seja o contato entre duas pessoas, durante um tempo ambos caminharam lado a lado pelo labirinto do conhecimento mútuo e, quando cientes de suas divergências irreparáveis ou mesmo de sua incompatibilidade, nada mais justo que um conduza o outro até a saída para que possam, enfim, se despedir com dignidade e seguir seus caminhos. Ao deixarmos de nos posicionar como o centro de todas as nossas relações passamos a enxergar o outro e a necessidade que temos de respeitá-lo na dinâmica da relação. Já dizia Antoine de Saint-Exupéry, em sua mais célebre obra, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas (…) e a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”. Então, mesmo que vez ou outra nos façam chorar, sejamos responsáveis para com os sentimentos do outro, na medida em que esperamos que sejam responsáveis com os nossos próprios.

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Olá, me chamo Wendell. Esse é o primeiro texto que publico no Médium e ainda estou aprendendo como tudo funciona. Caso gostem, me sigam aqui. Obrigado.