Sobre ser visto


Me recordo que na transição do ensino fundamental para o ensino médio eu era um jovem emocionalmente cansado. Cansado das cobranças, das indagações e dos embaraços que o ambiente escolar havia me trazido até então. Era o início de um novo ciclo e estava obstinado a começá-lo de maneira diferente, mudando meu jeito de ser e de me relacionar com as pessoas. Eu queria, em certo nível, não ser notado, pois tinha a ilusão de que dessa forma os três anos subsequentes seriam menos árduos do que aqueles vividos anteriormente. Cumpri o objetivo com maestria, diga-se de passagem. De fato, sob certos aspectos, os três anos do ensino médio foram bem menos difíceis de lidar. Àquela altura eu não pude perceber, talvez pela imaturidade de minha idade, mas por em prática essa mudança me custou sufocar uma parte essencialmente importante de minha personalidade e muito de minha habilidade social.

Gradualmente, fazer amigos, tarefa que antes desempenhava com certa facilidade, se tornou algo que já não sabia fazer. Costumava ser tão instintivo e de repente me vi sem saber por onde iniciar o contato com as pessoas e, quando o fazia, não sabia como manter e tornar fortes esses laços. Não me entendam mal, eu tive grandes amigos na época escolar e as pessoas tendiam a gostar de mim mas, estranhamente, algo me impedia de levar esses relacionamentos além do ambiente de ensino. Por mais que tivesse um considerável círculo de amigos em sala de aula, me via solitário quando fora dela. Era como se uma voz silenciosa murmurasse continuamente em meu íntimo que eu não era bom o bastante para que as pessoas gostassem de mim verdadeiramente. Por esse motivo, mantinha relações pouco profundas, sem aquela cumplicidade que existe nas verdadeiras amizades. Em retrospecto, hoje percebo que não queria ser notado por um tipo particular de pessoas, ouso dizer que a pretensão era enterrar apenas aspectos bem distintos de mim mesmo. Mas percebi da maneira mais árdua que não é possível se ocultar apenas de indivíduos selecionados. Uma vez invisível, ninguém será capaz de lhe ver, nem mesmo aqueles que ama.

Muito embora esteja narrando tudo isso agora, esse processo não foi feito de maneira totalmente consciente. Talvez por esse motivo, me indignava o fato de jamais notarem os conflitos internos que eu travava silenciosamente. Não raro, notava que certas pessoas de meu convívio se compadeciam por outras que passavam por situações semelhantes (em forma, mesmo que não em essência) ao que eu vivia em meu autoimposto isolamento e me ressentia por não perceberem que, também eu, necessitava de ajuda para transpor minhas barreiras. Como podiam notar os demais e ignorar a mim, que estava bem ali? Essa sensação apenas corroborava minha deturpada convicção de não ser bom o bastante, acentuando a odiada sensação de não caber em lugar algum.

Demorou longos anos para que eu percebesse que essa era uma situação criada por mim mesmo. Sendo assim, não era justo esperar de terceiros a tarefa de me retirar do lugar onde eu mesmo havia me colocado. Muito embora ajuda seja essencial, esse não é um fardo que cabe ao outro. Se me fiz invisível, deve partir de mim o ato de me fazer notar novamente. Não tem sido uma tarefa fácil, tenho que admitir. Quando se passa tanto tempo isolado em si mesmo é fácil perder a noção de como é compartilhar, sobretudo aspectos sobre si mesmo. Entretanto, foi justamente compartilhando aspectos sobre mim com poucos e preciosos amigos que pude recuperar as cores que havia perdido quando, anos atrás, optei por ser invisível. Não é nada fácil suplantar o temor de expor algo que lhe é íntimo e pessoal e é perfeitamente compreensível sentir medo, mas a medida que se percebe que não há muito o que se perder ao fazer isso para as pessoas corretas, o temor aos poucos se desfaz, dando lugar à satisfação de saber que, além de si mesmo, agora outras pessoas podem o ver de forma verdadeira.

Escrever esse texto é parte importante desse exercício de compartilhar e é bem possível que alguém, do outro lado de uma tela se identifique com determinados aspectos desse relato. Esse alguém pode estar passando por isso ou pode estar considerando a opção de se tornar menos do que de fato é apenas para não atrair atenções indesejadas para si. É necessário dizer que se tornar invisível não é uma opção, mas sim uma fuga e quando se habitua a fugir, é difícil deixar de fazê-lo. Tenha ciência de que no exato momento em que parar de correr, as questões das quais fugia virão ao seu encontro e, inevitavelmente, terá de encará-las. Posso afirmar que estive nessa situação por anos a fio e frequentemente ainda me pego ponderando sobre a opinião que outros têm de mim. No entanto, sempre que o faço, me lembro das indagações que fiz a mim mesmo quando notei que precisava mudar meu modo de ver tudo isso: Preciso de fato me adequar ao que os outros esperam? Ter a aprovação alheia ao custo de modicar aquilo que me torna único me tornará feliz? Para ambas as questões a resposta me pareceu bem clara: Não. Diz-se que o essencial é invisível aos olhos e, acredite, para aqueles cuja visão consegue enxergar além do que lhes parece invisível, não há nada mais prazeroso e gratificante do que ver e ser visto.


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