O jovem Narciso e o Exibicionismo no App Periscope

Narciso de Caravaggio

Narciso era um jovem de rara beleza e indiferente ao amor. Ele desprezou as investidas da bela ninfa Eco, que contrariada isolou-se na floresta até definhar e morrer. Ao contrário de Eco, outras ninfas desiludidas decidiram optar por vingança e interpelaram a deusa Nêmesis, que num ímpeto de fúria induziu Narciso a refrescar-se na fonte Téspias. O belo jovem, distraído ao ver o seu rosto refletido na água, mergulhou perdidamente apaixonado por si, pondo um fim a própria vida.

O termo Narcisismo advém do mito grego do jovem que nutria um excessivo amor à sua persona. Um narcisista, que pela raiz da palavra nárke tem relação com entorpecimento, é alguém insensível, cheio de si e que se entorpece fácil com os elogios e gracejos dos outros. Quanto mais atenção um narcisista receber, maior o seu nível de convencimento e importância que ele dá a si mesmo.

O fato é que ao longo da história da humanidade, sempre existiram Narcisos. E hoje os espelhos e tapinhas nas costas para afagar seus egos Também são virtuais. Os Narcisos contemporâneos pululam com intensidade na web e exibem-se quase que 24 horas por dia, ávidos por atenção, compartilhando detalhes íntimos de suas vidas, talvez na ânsia por tentarem dar sentido as suas vazias existências numa sociedade que também ama o espetáculo.

Claro que nem todo mundo que fala de si e marca sua presença na web é um narcisista, mas resolvi tocar no assunto baseado no que tenho observado em diferentes redes sociais virtuais. Todos são livres para se expressarem como bem entenderem e aqui não há uma censura ou normatização comportamental do uso da grande rede, pelo contrário, acredito até que em certa medida temos um pouco de Narciso. O problema é quando essa consciência de si descamba para a dependência patológica do exibicionismo.

A tragédia grega atual do jovem de rara beleza não é amar-se ao extremo, na realidade é exibir-se sem limites por intermédio das novidades tecnológicas midiáticas, que rapidamente transformaram expectadores em produtores de conteúdos digitais. O que vale para um Narciso hightech é a exposição na rede social da moda, na plataforma de compartilhamento de imagens ou produção de vídeos do momento. Suas imagens estáticas selfilizadas ou youtubelizadas estão aí disputando o vale tudo dos likes ou views e a cada clique, eles se regozijam a continuarem nesse ciclo da propagação de si em todas os meios possíveis.

Logotipo do app periscope

O uso de aplicativos para gadgets mobile que oferecem transmissão ao vivo, como o israelense meerkat e o americano Periscope, filhote do famoso Twitter, parece ser a bola da vez dos Narcisos virtuais. Assim como já acontece com o Instagram, no desesperado apelo por atenção materializado pelas frases “me segue que eu te sigo de volta” e “troco likes” em imagens estáticas ou em movimento nas redes sociais como o pinterest, vine, tumblr e outros, cresce em escala global a ânsia por curtidas que acumulam corações virtuais nas transmissões ao vivo, por exemplo, do app Periscope. Quanto mais corações, maior é a popularidade de um Periscoper.

O crescimento do uso da banda larga no Brasil, a oferta de celulares com planos acessíveis 3G e 4G de diferentes operadoras e marcas com seus sistemas operacionais propiciaram terreno para o uso em escala mundial desse tipo de tecnologia. O streaming de filmes já é uma realidade no país, basta ver o sucesso de empresas como Netflix e os apps dos canais televisivos que oferecem o mesmo serviço no mundo virtual. Já o streaming ao vivo pode ser visualizado em escala global e nos dá a possibilidade de sermos protagonistas, roteiristas, produtores e videomakers, tudo de uma só vez! Claro que isso é incrível, mas não deixa também de ser assustador. Ver as pessoas dando tanta importância para suas live transmissions, inevitavelmente me faz lembrar da série britânica Black Mirror, com sua tônica sobre quão perturbadora pode ser a tecnologia em nossas vidas.

Ao acessar o Periscope via smartphones, o usuário depara-se com uma infinidade de canais criados por outros periscopers, algo muito próximo ao das antigas salas de bate-papo do UOL, a diferença é que sua imagem aparece e os usuários que te assistem podem atribuir corações se o que estão vendo lhes agradam. É aí que o show dos Narcisos aflora. Dependendo do que os periscopers estão exibindo, a sua audiência e popularidade será medida pela quantidade de corações computados durante uma transmissão ao vivo. O Periscope tem integração com o Twitter e qualquer usuário pode compartilhar as transmissões ao vivo nas redes sociais de sua preferência. Detalhe: após a exibição, os vídeos ficam armazenados por 24 horas sendo possível visualizá-los no celular ao término de cada sessão.

O Periscope tem um grande potencial, afinal, quem não gostaria de discutir grandes acontecimentos em tempo real com outros internautas em diferentes partes do globo? Mas, infelizmente não demora muito para notarmos o vazio de mentes e vidas numa leve busca nessas transmissões periscopeanas. Muitos periscopers parecem estar numa profunda solidão e tédio. Sem falar na quantidade absurda de crianças e adolescentes que usam escondidos dos pais, e com certeza, reside aí um alerta para o combate à pedofilia, já que nesses canais aparecem pessoas de todos os tipos, bons e maus.

Voltando aos Narcisos virtuais, eles não cansam de me surpreender: ávidos por “coraçõezinhos” que supostamente atestam suas popularidades, eles pulam, dançam, respondem a todo tipo de pergunta e, evidente que com isso estão vulneráveis as críticas e elogios de suas audiências. Acontece que no Periscope, se o seu conteúdo estiver chato, logo os viewers correm para outros canais e até podem nunca mais voltar. Como já conhecemos o desfecho trágico sofrido pelo jovem grego de rara beleza, não duvido que a deusa Nêmesis tenha hoje transformado cada tela dos smartphones dos narcisistas em versões de fontes do rio Téspias.