Qual é o ponto, afinal?

Em 2012, a Prefeitura de Vitória implantou um sistema integrado de GPS nos ônibus municipais, possibilitando a consulta on-line de horários e localização dos pontos. Foi uma iniciativa bem curiosa e inesperada, visto o descaso com que o sistema público de transporte é tratado em nossa cidade: ausência, no próprio ponto, de informações essenciais como seu respectivo número, horários e trajetos dos ônibus, além de medidas duvidosas, como a substituição (ainda em curso) dos tradicionais letreiros dos ônibus por sistema digitais pouco efetivos.

De 2012 até setembro de 2014 o sistema passou por muitos problemas. Da baixa divulgação, passando pela falta de um aplicativo dedicado, era comum ter que lidar com as constantes quedas do sistema. Mas sobreviveu, aos trancos e barrancos, até o ano passado, quando foi totalmente retirado do ar. No seu lugar, uma página da prefeitura esclarecia os motivos, dentre eles, a necessidade de "modernizar" o sistema, ampliando sua utilização também para os dispositivos móveis. Curiosamente, os usuários já o faziam através de aplicativos criados por terceiros e disponibilizados no Google Play.

Rômulo Vitoi. O que dizer desse cara que eu nem conheço, mas que conseguiu — sem dinheiro e em pouco tempo — fazer o trabalho que a prefeitura ainda não fez.

Do alto dos meus parcos conhecimentos sobre sistemas deste porte, tive como reação inicial a pergunta óbvia: por que seria necessário tirar o sistema do ar para implementá-lo? Não seria razoável que o novo sistema pudesse ser desenvolvido em paralelo, sem a interrupção do serviço? Não é o que diz a prefeitura, em todas suas 25 respostas idênticas para tantas perguntas que pipocaram na área de comentários:

Assessoria ctrl+c & ctrl+v da Prefeitura de Vitória


O tal sistema provisório? Bem, ainda é exatamente o mesmo utilizado desde sempre por aqui, ou pelo menos desde que vim morar na cidade, há 13 anos atrás. Um sistema precário, confuso, sem qualquer apoio informacional no ponto físico. E as iniciativas para contornar o problema não vieram da prefeitura: no início do ano passado, uma estudante iniciou a colagem de adesivos nos pontos, com espaços para que os usuários pudessem preencher as linhas que passavam por ali. A prefeitura, inesperadamente, repudiou a ação, apontando um crime baseado na Lei Municipal Nº 5086/2000, que prevê uma multa de R$ 7.200,00 para casos em que se risca, cola papéis, pinta ou escreve nos espaços públicos. Na mesma matéria do G1, a prefeitura informava que os abrigos estavam sendo reformulados e que a instalação das informações seriam feitas de forma gradativa, no início do segundo semestre. Até o momento, não tive notícia de qualquer ponto que tivesse recebido tais implementações.

Luiza Barretto Boechat, a estudante que fez o trabalho da prefeitura e que quase foi multada por tamanha ousadia. Foto por Carlos Alberto Silva.

Mas a mesma prefeitura que repudia e se levanta contra ações legítimas do povo é também a que volta atrás em suas próprias convicções. Algo muito parecido havia acontecido um ano antes deste caso, quando os grafites do projeto Ponto de Arte foram também repudiados e apagados pela mesma prefeitura.

Arte ou sujeira? Foto por Maria Eduarda Gimenes e grafite por Ficore.

Voltemos a questão principal. Na época da última interrupção, insatisfeito com as respostas vagas e aparentemente infundadas, abri um chamado no site da prefeitura, questionando alguns pontos que, para mim, eram essenciais: por que o sistema precisou ser retirado do ar para implementações, quando voltaria a ativa e o porquê de respostas tão insuficientes. Eu realmente estava desconfiado de que isso se devia ao término do contrato entre prefeitura e os responsáveis por manter o sistema, mas isso não havia sido dito nas últimas declarações oficiais. Dentre todas as outras justificativas, esta me parecia ser a mais plausível e também possível de deduzir à partir desta notícia, sobre uma curta paralização do serviço, ainda em Maio de 2014.

Alô, prefeitura: agora é sério.

Precisaram de pouco mais de dois meses para me darem um retorno. Na resposta, a conclusão já esperada: realmente havia uma questão envolvendo o fim do contrato e a abertura de uma nova licitação.

Sério mesmo?

Enquanto isso, o que corria na mídia e nas divulgações oficiais ainda era a versão anterior. Primeiro, o sistema não tinha data pra voltar a funcionar. Em dezembro de 2014, a volta foi estipulada para janeiro de 2015, notícia reforçada, já em Janeiro de 2015, por Márcio Passos, subsecretário de tecnologia da Prefeitura de Vitória. Por fim, e de volta ao início, uma notícia que derruba qualquer estimativa anterior.

Afinal, qual é o ponto aqui? Que existe um descaso com os serviços públicos, isto não é nenhuma novidade. Também não é algo tão inesperado que, mesmo com tempo suficiente para desenvolver e aprovar uma licitação, a prefeitura tenha se enrolado em prazos e estourado suas próprias estimativas. A questão principal é a dificuldade de manter um diálogo transparente com o povo; é a ineficiência em promover uma gestão pública adequada, preocupada não somente em promover implementações necessárias e urgentes, mas também em esclarecer e informar a população quanto ao andamento destes processos internos.

Difícil evitar a sensação de que estamos sendo constantemente iludibriados com tentativas vãs de encobrir problemas que são evidentes para todos. Já faz parte da sabedoria popular a idéia de que justificativas oficiais sempre irão soar como desculpas, e reverter este pensamento é mesmo uma tarefa e tanto. Ninguém realmente espera que, de um governo para o outro, seja possível observar uma clara mudança de postura em relação ao compromisso com os serviços públicos. O que resta é justamente o que a Prefeitura de Vitória não consegue nem minimamente fazer: dizer a verdade.