Eu sou!
Eu não sou mais o que eu era antes. Na verdade, eu não sei bem o que eu sou. Em determinados momentos penso que sou uma colcha de retalhos, todo retalhado, costurado e emaranhado com dores e sofrimentos em minhas entranhas, dilacerado pelos traumas e marcado pelo vazio que se foi mas que ainda me preenche. Em momentos indeterminados penso que sou aquilo que nunca deveria ter sido, fruto de meus erros e resultado daquilo que não gostaria de ter vivido. Aliás, vivo preso nas consequências de meus atos inconsequentes e estagnado naquilo que não se vai, estacionado onde não deveria estar, imóvel devido à paresia, observando a parresía iminente.
Sou o que outrora condenava, sou o julgo pesado julgado e processado, condenado sem misericórdia, sentenciado a ser silenciado. E é diante do silêncio que desfaleço. É no silêncio que grita, que ecoa, que reverbera que enlouqueço. E na loucura encontro a lucidez, por mais sobrenatural que pareça. É diante daquilo que é mistério que entendo quem sou eu. Embora, perceba que eu sou aquilo que não é.
Sou semente a virar fruto, sou embrião a virar feto, sou presente esperando pra ser futuro, sou imaturo esperando o processo natural de maturação.
Sou incompleto esperando a completude, sou a imperfeição esperando para me aperfeiçoar, sou a coleção que espera a peça preciosa para se tornar imemorial e única.
E não venha me julgar por ser quem eu sou, embora não seja quem eu deveria ser. Sou o espírito adormecido esperando a força despertar-me, sou o não perpétuo esperando a perpetuação e perfeição, embora reconheça que perfeição é hipotético, irracional e utópico. Sou o pretérito imperfeito no presente esperando o futuro perfeito do subjuntivo me condicionar a ser perpétuo na escatologia do meu ser.
Sou a mudez embora recheado de palavras que tendem a explodir de dentro de mim, sou o caos ante a todo cais, sou o princípio do precipício, sou o ápice do abismo, sou o que há de ser e o que advir e há de vir. E o que há de vir, vigorará, revigorará em mim.
Sou o silêncio.
E é no silêncio
Que caio aos Pés e me dou conta de não ser o que achei que eu era é apenas normal
E que não venha esperando que eu seja quem você quer que eu seja
Porque nem eu sou aquilo que eu queria ser
E que não tem problema nenhum nisso
Porque eu sou ISSO
Mas pra você eu posso ser o tudo NISSO
Só isso.
Wesley Fernandes Fonseca
