Por que os restaurantes deveriam abolir os menus infantis dos cardápios?

Nada de nuggets com arroz e fritas ou macarrão na manteiga: a importância de acabar com a ideia equivocada de “comida de criança”

Bifinho com batata frita, hamburguinho e macarrão com molho vermelho — ou em alguns casos molho branco, no máximo. Pode reparar: o repertório dos menus kids nos cardápios dos restaurantes dificilmente vão além desse trio. Será que todas as crianças gostam de comer apenas essas três coisas?

Ao perpetuar a repetição, os restaurantes, de uma maneira geral, estão ajudando a criar uma cultura de deseducação do paladar infantil — apoiada pelos pais, claro, que são os maiores responsáveis por aquilo que seus filhos comem ou deixam de comer. “A maior parte é da conta dos pais que, por comodismo, querem aquilo que as crianças aprenderam a achar mais gostoso, para não darem trabalho no restaurante”, afirma Patrícia Feldman, culinarista e criadora do projeto Crianças na Cozinha. “Pelo lado do restaurante, o custo desses ‘cardápios infantis’ também é bem menor. Já o preço para o cliente nem sempre acompanha esse menor custo, o que explica a insistência de algumas casas em tê-los”, diz.

A especialista defende que o restaurante seria uma ótima oportunidade para pequenos desafios gustativos. “Não precisa chegar com mega preparações ou ingredientes super exóticos para as crianças. Não é um crime comer macarrão, mas ao invés do molho vermelho de sempre, não seria interessante desafiar com um molho de aspargos ou cogumelos? E se trocar o bifinho grelhado por uma carne assada com algum temperinho mais caprichado”, propõe.

“Não dá pra mudar essa cultura de bife/batata-frita de uma hora pra outra, mas dá pra fazer pequenas mudanças, pequenos incrementos. O que não podemos é limitar o paladar das crianças. Elas querem aquilo que alguém as ensinou a querer”, defende.

No Bar da Dona Onça, no Centro de São Paulo, a chef Janaína Rueda não acredita em distinções entre o paladar de crianças e adultos. “Eu acho um absurdo esse preconceito com o que crianças comem ou deixam de comer. Tudo é comida de criança e de adulto”, ela defende. Como não tem um menu kids, decidiu adotar a meia porção de vários pratos como forma de atender ao público infantil, que come menos. “Para as crianças de menos de cinco anos, levamos na mesa como cortesia um mexidinho caprichado, de arroz, feijão, carne moída, couve e farinha de mandioca. Os garçons deixam claro que é um presente especial, elas adoram e comem tudo”, conta.

Para agradar o paladar infantil, também, ela criou um nuggets de dobradinha — a dobradinha é processada e depois empanada e frita como nuggets. “As crianças adoram. É um jeito de servir algo que elas gostam sem cair nos industrializados de péssima qualidade e ainda fazer, de uma forma discreta, elas experimentarem pratos que não estão acostumadas”, afirma. Entre os pratos da casa que mais saem para os pequenos estão o estrogonofe, o fusili com ragu de linguiça, por exemplo.

“Eu nunca deixo os pais pedirem espaguete na manteiga, acho o fim do mundo. A criança precisa olhar para o cardápio e escolher o que gosta, sempre há algo”, diz.

No restaurante Obá, também em São Paulo, os menus são entregues primeiro para os pais para eles decidirem se vão mostrar ao filho as opções do menu infantil, que vai além das opções convencionais, como bolinhos de carne feito com barreado — um típico cozido de carne paranaense, feito em panela de barro. “Fico triste quando vejo numa mesa uma criança de 8 anos comendo bifinho com fritas ao lado dos pais comendo arroz de pato ou moqueca de camarão”, afirma Hugo Delgado, um dos sócios.

“Nós temos menu infantil principalmente porque ainda existem pais que educam seus filhos para comer comidas de criança. Como restaurante, preciso atende-los”, diz. “Mas me orgulham nossos pequenos clientes que nos visitam para comer nosso menu tradicional, algo que tem aumentado. Meninos e meninas que comem arroz de pato tailandês, moqueca de camarão, tacos de carnitas e outros pratos”, conta.

Mas é um movimento que tem que começar em casa: não dá pra nunca estimular o paladar das crianças na mesa de jantar, oferecendo todo dia mais do mesmo, e querer que eles cheguem no restaurante cheios de vontade de provar um monte de coisas diferentes.

Delgado acredita que é função dos pais introduzirem as crianças ao ambiente dos restaurantes, tentando inseri-los na experiência de comer fora. “Não me conformo quando separam a mesa dos adultos da mesa das crianças”, diz. “A refeição é algo para ser feita em família, uma atividade que seja legal pra todo mundo”. A culinarista Patrícia pondera que restaurante é um programa bem chato para as crianças, se analisado friamente. “Um bando de gente comendo, sentada por horas, em um ambiente onde bagunça, correria e vozes altas não são toleradas definitivamente não é coisa de criança!” diz.

Mas é possível deixar a experiência mais gostosa pra eles, comentando sobre ingredientes, mostrando receitas nas mesas próximas e brincando de tentar adivinhar o que é. Com os pratos à mesa, conversar sobre eles, mostrar o que tem, estimular os sentidos. “Deixar a criança de fora do programa estando nele é pedir pra ela não gostar, aí a ‘comida de criança’, nada saudável e estimulante, acaba virando apenas um ‘prêmio de consolação’ pra ela aguentar a chatice do programa”, conclui.

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Journalist and food writer

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Rafael Tonon

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