Adventure Time e a renascença do Cartoon Network

(texto publicado dia 29/10/2014 no site Série Maníacos)

Não é segredo que a televisão a cabo no Brasil teve um impulso gigantesco nessa última década. A programação da TV aberta perdeu a atratividade, e até o que era trash se tornou clichê. Outra coisa que não é segredo é que um dos principais motivos para adquirir planos de televisão fechada é para que as crianças tenham algo para assistir. Afinal, as deliciosas manhãs de desenho foram tomadas pelas donas-de-casa, e só o SBT se mantém firme e forte com o Bom Dia & Cia — mas até quando? Não se sabe.

Contudo, mesmo com os vários canais que surgem ano após ano, tem aqueles que estão nostalgicamente no nosso coração. Se alguém te perguntar assim, na lata, qual é o canal de programação infantil mais conhecido, é provável que tu respondas Cartoon Network. Se tu responder Discovery Kids, ou é um pai surtado ou estou muito chateado contigo.

Eu, assim como muitos de vocês, suponho, cresceram assistindo as geniais animações do canal. Não há quem não lembre de Johnny Bravo, O Laboratório de Dexter, A Vaca e o Frango, Eu Sou o Máximo, As Meninas Superpoderosas, Du, Dudu e Edu. Eu tinha uma sensação um pouco mais clandestina porque não tinha TV a cabo em casa, então ia à forra visitando colegas de aula ou algumas amigas da mãe que tinham NET, Sky, DirecTV ou o raio que o parta.

Enfim. O tempo passou, a gente foi crescendo, virando mocinho, e as animações do CN foram se renovando junto conosco — mas não para nós. Nossos programas favoritos estavam nas tardes e noites da Globo, na MTV, e depois da meia noite no Multishow. Mas, como eu disse, o tempo passa. Malhação deixou de nos atrair, Astrid Fontenelle apagou as luzes de forma simbólica na despedida da MTV, e começamos a ter e fazer nós mesmos o que víamos nas madrugadas do Multishow. E, em meio a uma crise que assola nós, jovens entre vinte e trinta anos, podemos voltar a assistir desenhos sem que nos julguem infantis. E, se nos julgarem, ora, pagamos nossos impostos e o problema é nosso. Não sei se o CN percebeu que o seu público pioneiro está nostálgico, mas é fato que as atuais animações do canal tem grande apelo não só para crianças, mas também para nós.

Esses desenhos são Adventure Time (Hora de Aventura) e Regular Show (Apenas um Show). Ouso dizer que o Cartoon Network está vivendo um período de renascença, capitaneado por Pendleton Ward (criador de Adventure Time) e J. G. Quintel (criador de Regular Show). Os dois amigos e colegas no California Institute of the Arts faziam parte da equipe de produção de The Marvelous Misadventures of Flapjack, criado por Thurop van Orman.

Aqui, nesse texto, foco em Adventure Time. Regular Show é um desenho genial, quase um novo Beavis & Butthead, mas a reação dos fãs adultos a Adventure Time é muito mais curiosa. Considerado por muitos a melhor série de fantasia no ar (fãs de Game of Thrones vão ficar furiosos), AT tem as características típicas que fazem um fã normal se tornar um aficionado: subtramas, teorias da conspiração, personagens dúbios, comparações com o mundo real… tudo isso está no bizarro mundo de Ooo. O curta Adventure Time, lançado em janeiro de 2007 na Nicktoons Network, tornou-se um viral. O Cartoon Network encomendou episódios e a série estreou dia 5 de abril de 2010. Desde então, a série é o carro-chefe do canal, com audiência enorme, de baixinhos pessoas de todas as idades.

O humano Finn e o cachorro mágico Jake são melhores amigos, que moram em uma árvore e vivem em busca de aventuras, para prazer pessoal e proteção do Candy Kingdom, governado pela fofíssima Princess Bubblegum. Até aí, poderia ser algo básico. Mas não é qualquer desenho que tem noções claras de ambientalismo, igualdade de gênero e sexual, poder popular, totalitarismo e relações sociais.

Adventure Time não é o primeiro desenho ambientado em um mundo pós-apocalíptico no Cartoon Network — Samurai Jack foi o primeiro, e também se destacou como desenho cult. Só que, como é perceptível, as aventuras de Finn e Jake se tornaram a joia na coroa do apocalipse animado. Um exemplo: a Guerra dos Cogumelos, responsável pela destruição de uma parte do planeta na série, e catalisador das várias bizarrices que permeiam a trama, é uma analogia simples e precisa ao perigo das guerras nucleares.

Adventure Time, além das noções ambientais, entrou numa seara que nunca é explorada em desenhos: a homossexualidade. O episódio What Was Missing coloca na mesa uma possibilidade um tanto sem precedentes para uma animação infantil do Cartoon Network: uma relação amorosa mal-resolvida entre Princess Bubblegum e Marceline. Isso provavelmente passa despercebido para as crianças, acostumadas por séculos e séculos de um padrão heteronormativo de relacionamentos interpessoais. Se Princess Bubblegum e Marceline realmente tiveram essa relação, fica por conta do espectador concluir (e, pra mim, ah, tiveram. Que lindo imaginar as duas juntas. A fanbase treme junto). Entretanto, Pendleton Ward se mostrou contrariado aos exageros — palavras dele, um grande “hullaballoo” — que o episódio foi tratado (embora ele mesmo tenha confirmado a uma roteirista que sim, Bubblegum e Marceline eram namoradas). What Was Missing é emblemático porque explicita a intenção de Pendleton e equipe em fazer com que cada nicho, cada “grupo” que acompanha o desenho tenha uma percepção diferente sobre a história. E mais: com que essas percepções sejam complementares na medida do possível, para lembrar que o ponto de vista das crianças é vital para o pleno entendimento. Isso fideliza a audiência “adulta” de forma encantadora.

E é essa fidelização que fez com que os fãs acompanhassem o desenrolar das temporadas com o mesmo afinco que acompanham The Good Wife, Revenge, Game of Thrones. O surpreendente season finale da 5º temporada, Billy’s Bucket List, traz à tona um dos mistérios mais especulados da série. Durante quase 150 episódios, Finn era o único humano conhecido, tanto por nós quanto pelos personagens, habitando o Reino de Ooo. Depois do episódio Betty isso mudou, mas o novo humano não é contemporâneo. Só que a revelação do falecido ídolo de Finn foi uma revolução. Uma das pessoas cuja existência era biologicamente óbvia e a identidade era desconhecida está viva, e com isso estampa-se o maior ponto de interrogação até o momento em Adventure Time.

E a sexta temporada, embalada pela solução desse mistério, se destaca pelo roteiro extremamente apurado, pelo andamento rápido, e pelo clima místico que está quase palpável. Não foi uma reinvenção, como Archer fez de forma genial na 5ª temporada (Archer: Vice), mas sim um novo tom à série, pouco discernível pelas crianças, mas que faz com que nós, mais velhos, enlouqueçamos nosso coração de fã. Finn não é como Ash, o protagonista de Pokémon, que está há duas décadas com dez anos de idade. Finn está crescendo, a voz engrossa, o coração fica confuso, as paixões surgem, os conflitos também. Finn está se tornando o que nós nos tornamos quando deixamos de ver desenhos para acompanhar “programas de gente grande”. Porra, tá percebendo tudo isso? Os detalhes, a história complexa? Isso conquista um fã-clube numa tacada só.

Encerrando, destaco: para compreender o motivo da aclamação de Adventure Time em um público de diversas faixas etárias, é preciso avaliar separadamente quem compõe esse público. É justo dividir em duas grandes categorias: crianças e gente grande. A criança que assiste o desenho não vai assistir um episódio e pensar “nossa, a administração da Princesa Jujuba, apesar de atenciosa, é extremamente despótica”. Adventure Time é, inegavelmente, uma animação infantil. É necessário ressaltar isso, porque alguns fãs acabam criando teorias e conjecturas que se distanciam demais da verossimilhança e do próprio contexto do programa.

Com o tempo, ficam claras as intenções de Adventure Time para com o público. As crianças tem uma atração divertida, colorida, e com roteiros que respeitam e aguçam o intelecto. Os adultos, sem exagero, tem um programa que os leva, NOS leva, a um tempo que sentimos saudade. Temos a vivência da vida adulta, o coração de fã de um adolescente, e a imaginação fértil de uma criança: todas reunidas no exótico, gritante, brilhante, amável Adventure Time.

Ninguém segura o Cartoon Network. Ninguém segura Finn e Jake. E todos nós estamos shippando Princess Bubblegum e Marceline.