Muito obrigado, Chespirito

(texto publicado dia 29/11/2014 no site Série Maníacos)

Hoje é um dia muito triste. Triste para a comédia, para a arte, para o povo, para as lembranças.

Todo mundo morre. A gente sabe disso, embora prefira não pensar. Chespirito tinha 85 anos, era um homem doente, e, depois de ter morrido várias vezes em boatos da internet, nos deixou com um rombo no coração nesta sexta-feira. E a América fica saudosa, fica pesarosa, chora.

Chespirito, o pequeno Shakespeare, um Chaplin latino, criou e interpretou Chaves, Chapolin, dr. Chapatin, Chómpiras… Um menino órfão e tonto, um anti-herói vermelhinho e tonto, um médico muito velho e tonto, um ladrão de bom coração e tonto. E também criou o seu Madruga (síntese do Brasil), Chiquinha, Quico, Dona Florinda, Dona Clotilde, Prof. Girafales, sr. Barriga, carteiro Jaiminho, dona Neves, Nhonho, Pópis, Godines, Paty, Glória, o dono da venda da esquina (que tem 25 anos e é meio-tonto, enquanto seu Madruga tem 50 e…), o também anti-herói Super Sam e os eternos vilões Racha-Cuca, Alma Negra, Quase Nada, Chinesinho, Poucas Trancas, Bruxa Baratuxa… E ainda roteirizou e estrelou filmes, como El Chanfle (sobre a paixão continental, o futebol), Charrito — Um Herói Mexicano… Todos hilários, e sob medida para o cotidiano de toda a latinidade. Aliás, os países nos quais Chespirito emplacou sucesso atrás de sucesso são países de terceiro mundo. E nos Estados Unidos, sucesso entre os hispânicos. Na Espanha e Portugal, países mais “povão” na Europa, sucesso. Do México pra baixo, moldadores de uma nova identidade.

Chaves com certeza representou a infância da América Latina. Por isso a identificação tão grande de tanta gente. Quem já tentou “brincar de Chaves” sabe que nunca deu certo, porque só o fato de brincar de qualquer coisa já era brincar de Chaves. E eu, sempre muito tonto e atrapalhado, era hors concours na brincadeira. Chaves, Chiquinha e Quico representavam diretamente uma criança da minha infância, e provavelmente da de vocês também. O Chaves, contudo, era um personagem à parte para nós, na idade em que começávamos a ter discernimento do que é justo e do que não é. Identificávamos-nos com ele um pouco, mas nos solidarizávamos com sua fome constante, o fato de morar de favor na casa 8 não se sabe com quem, o fato de ser tonto e sofrer nas mãos dos outros. Chespirito, sempre unindo genialmente a comédia com a doçura, criou para muitos a primeira grande pena, e, por decorrência, a primeira grande preocupação social. E isso não foi sem querer querendo, foi querendo por querer.

O herói Chapolin Colorado, vermelho como o gafanhoto que o nomeia, também honrava a cor do sangue sempre derramado no México, pela exploração dos europeus, e depois pelos estadunidenses. E por isso debochava com prazer do Superman, Batman e Robin, Tarzan… Chapolin é para o heroísmo latino-americano o que Chaves é para as crianças desse continente. Tudo conspirava contra eles, nada dava muito certo no final, mas a risada era garantida — a ALEGRIA era garantida.

E lamento que, na medida em que crescemos, essa visão doce e em busca de alegria e justiça vai ficando no fundão da memória. Chespirito nos ensinou muita coisa quando pequenos, mas não podemos esquecer disso agora que somos “grandes”. Um mundo com Chaves e Chapolin é um mundo melhor. É um mundo mais legal.

Eu achei que seria fácil escrever, afinal, tenho muito a contar. Mas me doeu. Ainda está me doendo demais, mais do que eu acreditava que seria dolorido. Na aula, tinha gente me dando os pêsames, pois, para muitos, minha imagem é associada à imagem dos programas do Chespirito. Por isso, no ônibus de volta pra casa, eu chorei. Não muito, mas “ozóio se encheram d’água, que até a vista se atrapáia, ai ai”. E em casa chorei de novo ao ver a homenagem que o SBT fez. Não há como não priar um pouco de cânico. Não dá pra seguir o conselho do prof. Girafales, “nada de exaltações”. Ele era um ídolo, definidor da cultura latino-americana dos últimos trinta anos. Frases do programa são usadas no cotidiano, personagens são associados a pessoas comuns, especialmente chapéus. “Só por causa do chapéu”? Sim.

Eu sou apenas um chavesmaníaco. Somos milhares, milhões, e cada um com experiências semelhantes, mas ao mesmo tempo únicas. Todos adoradores da genialidade e da doçura de um pequeno Shakespeare, do qual falaremos para nossos filhos com os olhos brilhando, e eles verão a importância “desse cara que o pai / a mãe fala” pra nós. Falar de Chespirito é nos fazer crianças de novo. Porque por ele nosso coração bate como pano de engraxate, como dente de alicate, como sinos de chocolate, como caroço de abacate. Por ele, declamaríamos O Cão Arrependido, com seus versos repetidos quarenta e quatro vezes. Por ele, cantamos todas as músicas que já vimos na série.

Os personagens vivem, a arte vive. Mas Bolaños morreu. E isso dói demais. Porque, embora as lembranças de nossa infância vivam para sempre, a pessoa que nos deu essas lembranças não vive mais. Mas devemos seguir o que Chespirito sempre quis que fizéssemos: buscar a felicidade, ensiná-la e passá-la adiante. Por isso, deixo aqui o último capítulo do livro Diário do Chaves, escrito pelo próprio Chespirito.

“O professor Girafales nos ensinou que a palavra ‘inflação’ não quer dizer somente quando algo está inflado, mas também que as coisas estão cada vez mais caras.

Por isso Nhonho é uma criança mais cara do que eu; porque ele está tão gordo quanto um globo bem inflado. Eu, por outro lado, estou parecendo um globo bem desinflado. Por isso sou uma criança barata.

Eu queria ser uma criança cara, porque as crianças caras comem muito bem todos os dias. Mas são poucas as crianças caras; a maioria é barata.

O professor também nos disse que é muito importante saber economizar, pois os que economizam sempre têm alguma coisa quando a inflação chega.

Eu me lembro que, pouco antes de morrer, Jaiminho, o carteiro, me disse que economizar é o mesmo que guardar. E que a mesma coisa acontece com a memória, porque as pessoas guardam na memória as coisas de que se lembram. Ou seja: se você não lembra de alguma coisa, é porque não a guardou na memória.

Isso quer dizer que economizar é bom. Mas nem sempre; só quando você guarda coisas boas. Porque, por exemplo: não é bom guardar lixo; é melhor jogá-lo fora. Por outro lado, é bom guardar um pouco de dinheiro, para o caso de a inflação chegar.

E a mesma coisa vale para as recordações. Por exemplo: se você briga com outra criança, nunca guarde essa recordação na memória, porque se você se lembrar, vai sofrer de novo.

E o contrário: se você viveu uma coisa muito boa, então é melhor que se lembre disso a todo momento, porque aí toda hora vai sentir que está contente.

E a felicidade é quando você está contente.

Ou seja, é melhor guardar na memória só lembranças das coisas boas.

Porque pode vir uma inflação de felicidade.”

Muito obrigado por tudo, Chespirito.