O Pioneirismo de Laverne Cox

(texto publicado dia 12/07/2014 no site Série Maníacos)

Na quinta-feira 11, foi divulgada a lista dos indicados ao 66º Primetime Emmy Awards. Entre os líderes de indicações, está a comédia dramática Orange is the New Black, que garantiu dez, e merecidíssimas indicações. Melhor série de comédia, melhor atriz com Taylor Schilling, atriz coadjuvante com Kate Mulgrew, direção com Jodie Foster (sim, A Jodie Foster), roteiro… E também três indicações para melhor atriz convidada em série de comédia: Uzo Aduba, como a adorável e bizarra Crazy Eyes, Natasha Lyonne, como Nicky, e Laverne Cox, como a transexual Sophia Burset.

Laverne Cox é uma belíssima mulher, que nasceu designada com o sexo masculino. Sexo não é gênero, e também não é orientação sexual. Há uma tendência, reforçada pela mídia, de dividir as pessoas entre homens e mulheres hétero, homens e mulheres gays, e um terceiro grande balaio que entram transexuais, transgêneros, travestis, drag queens… Embora seja uma divisão ridiculamente simplista e preconceituosa, ela acontece mais por uma falta de conhecimento sobre a diversidade sexual. Tratar as várias diferenças como uma só é mais fácil, mas vai se tornando cada vez menos aceitável. Transexuais e transgêneros não são drag queens. Laverne Cox, portanto, não é RuPaul. O pioneirismo deles (ou delas, RuPaul aceita ser he ou she, “as long as you call me”) na promoção e defesa dos transgêneros, no caso de Laverne, e das drag queens, no caso de Rupaul, é o maior ponto de união. Eles agora estão na mídia, e são “mainstream”. Mas Laverne foi indicada ao Emmy, e RuPaul inexplicavelmente ainda não.

A indicação ao Emmy é mais um pioneirismo de Laverne. Ela produziu e apresentou o reality TRANSform Me, da VH1, sagrando-se como a primeira transgênero afrodescendente a ter seu programa de televisão nos Estados Unidos. E depois de ficar em quinto lugar no voto popular da revista Time para a lista das 100 pessoas mais influentes do ano, mas não estar na lista oficial, obviamente deu-se início a uma grande polêmica. A própria Time percebeu isso, e logo depois fez com que Laverne fosse a primeira pessoa transgênero a estampar a capa da revista.

A aclamação de Laverne é devida, principalmente, à qualidade de seu papel em Orange is the New Black. Diferente de outras produções audiovisuais que valem-se de estereótipos gritantes para criar papéis sempre cômicos para transgêneros e transexuais, a série do Netflix fez uma Sophia com as mesmas falhas, dilemas e situações que as outras presidiárias. Pela primeira vez na minha memória, uma pessoa trans teve um personagem de qualidade. E por isso é preciso parabenizar Jenji Kohan, a criadora da série, que se mostrou tão sensível quanto genial e inovadora, e criou uma maravilhosa Sophia entre uma gama de outros maravilhosos personagens. A empatia com Sophia não se dá apenas pelo problema horrível de corte de gastos do presídio, o que incluiu a não-aquisição dos hormônios tão necessários para que ela garantisse ser quem realmente era. Sophia é uma personagem genial, carismática. E esse carisma e aclamação da crítica e público é uma vitória gigantesca.

A confusão ainda é comum, e não tiro a razão: vivemos numa sociedade que as diferenças assustam, e por isso forçar um padrão preto-no-branco é mais seguro para muitos. Contudo, o progresso é inevitável e irreversível, e isso significa que os milhões de tons entre o preto e o branco serão, por via de regra, aceitos, respeitados e amados. Não são tons de cinza, são tons coloridíssimos.

Em uma sociedade que ainda vê uma mulher transgênero como homem, pelo simples fato de ter nascido homem (sim, isso é um simples fato), a indicação de Laverne faz mais do que justiça à sua atuação. Faz justiça aos transgêneros e transexuais como um todo, que finalmente conseguem seu lugar ao sol nas artes e nas premiações. Essa indicação é para a história.

Parabéns para Laverne Cox, indicada ao Emmy de melhor atriz convidada em série de comédia. Mas não ganha da Uzo Aduba.