Miss universo do chuveiro


Acho que todo mundo tem aquele momento próprio do dia, né? Aquela hora, minutos, momentinho que seja, onde sente que nada mais importa a não ser uma pessoinha no mundo: você.

Né? Com certeza? Sim? Não? To falando merda?

Eu tenho, meu momento dura vinte minutos por dia: o banho. Sim, oh meu Deus, como eu posso gastar vinte minutos de água todo santo dia em meio a essa seca tão grande, oh meu Deus. Mas não dá, eu preciso. Porque nesses vinte minutos eu sou a melhor pessoa do mundo.

Deve ser porque é o único momento em que estou 100% sozinha, sem a loucura do trabalho, da faculdade, da rua, do ônibus cheio, da família que vejo somente duas horas por dia. Na hora do banho eu penso. Penso sobre a minha vida, as coisas que estão acontecendo, o que eu acho sobre elas, viro minha psicóloga. E se fosse remunerada, me pagaria muito bem.

Mas não é só isso. Posso ser o personagem que quiser, depende do dia.

Quando estou feliz, sou a melhor cantora ou dançarina do mundo, minhas coreografias bombam e meus shows lotam. Sou a artista mais simpática, minhas entrevistas no tapete vermelho são as melhores da noite.

Também sou embaixadora da ONU, resolvo os conflitos do mundo de forma inteligente e justa, salvo a economia mundial e acabo com a pobreza nos países de terceiro mundo. Os países ricos ouvem todos os meus conselhos e o programa da Oprah bate recordes de audiência quando sou entrevistada.

Sou filósofa, miss universo, modelo, escritora (aliás isso ficou bem melhor quando pensei embaixo do chuveiro). Não sei porque isso acontece, mas tenho minhas apostas em uma teoria: nesse momento, ninguém pode me julgar.

Ninguém pode apontar o dedo e dizer que estou errada, que não canto bem o suficiente ou que minhas idéias vão levar o mundo a um colapso terminal. Ninguém diz o que eu posso ou não fazer ou ser.

E deve ser por isso que nunca nos sentimos felizes por completo, fora do banho ou de qualquer que seja o momento particular. Temos tanto medo de como as pessoas vão nos julgar, se seremos amados, aplaudidos, vaiados , fracassados ou um sucesso completo. E esse medo não deixa com que o artista do chuveiro saia. O medo é uma bosta.

Mas, enquanto to lá sendo a miss universo do chuveiro, nem sinto que ele existe.