Cidades limitadoras

Esse textão tem a pretensão de mostrar, sem dados científicos e a partir de experiências pessoais, como as cidades brasileiras limitam seus habitantes no seu desenvolvimento e sua independência pessoal.

De agosto de 2013 a julho de 2014, tive uma das experiências mais incríveis que foi morar e estudar na Europa. Graças ao Ciência sem Fronteiras, tive a oportunidade de passar um ano morando em Rotterdam, na Holanda, e estudando na Willem de Kooning Academy. Foi o maior contato com um universo completamente diferente do meu, apesar das óbvias semelhanças, que colocaram em cheque diversas perspectivas, inclusive a de não perceber a cidade como principal marco social no indivíduo.

Explicando: antes de chegar na Europa, nunca tinha saído do país, e minhas experiências urbanas, além de Fortaleza e o interior do Ceará, tinham sido as grandes cidades do Brasil, como Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Recife e Rio. Assim, nunca tive um contato tão diferente com a atmosfera urbana que me fizesse repensar as relações da cidade com o indivíduo. Apesar de ter adorado São Paulo, Recife e Belo Horizonte, principalmente, e de ter fantasiado em morar nas três cidades, foi apenas na Europa, que eu cheguei a ter ressentimentos com as cidades por elas serem tão incríveis. E era um ressentimento misturado com vitimização, tinha raiva das pessoas incríveis que eu conheço não terem a oportunidade de terem uma experiência de cidade tão sensacional como as da Europa.

Não é diminuindo as cidades brasileiras ou exaltando a cultura europeia, longe disso, mas sim perceber que a grande qualidade de vida das cidades europeias é que proporciona que suas populações sejam tão livres para pensar, fotografar, viajar e experimentar. A Europa é vanguarda e ainda centro econômico e tecnológico, mesmo depois de duas guerras mundiais que arrasaram o continente, porque concentrou os esforços políticos em melhorar a vida das suas populações — mesmo que em parte, tenha sido só para fazer frente à União Soviética.

A Europa sempre se considerou o berço da civilidade, do humanismo e das artes, e, portanto, é de lá que (teoricamente) emana toda a cultura da humanidade. Sendo assim, as políticas urbanas e de desenvolvimento passam a ser voltadas para o florescimento desse humanismo, dessa civilidade e das artes, e não porque isso seja características exclusivas da Europa, mas porque eles acreditaram nisso tanto tempo, que acabou se tornando uma verdade, uma missão de vida. Se a maior contribuição da Europa é a cultura, as artes e a tecnologia, os governos de lá passam a fomentar justamente essas áreas.

A América foi descoberta (pela Europa) no fim do século 15 e representou um outro mundo, com outros valores, para o europeu que ali entrava. Com a missão cristã de espalhar a “palavra de Deus” pelo mundo, o português, o espanhol e o inglês (principalmente) tinham o mesmo objetivo: construir o reino de Deus na Terra. No entanto, essa construção se deu de maneiras tão distintas, que acabou resultando em países tão diferentes quanto México, Estados Unidos e Brasil, por exemplo. Entretanto, o “Novo Mundo” apresentava um perigo que já estava meio que “solucionado” na Europa: o paganismo e uma natureza estranha, com animais e plantas desconhecidas. A construção do reino de Deus pelos europeus exigia a dominação da natureza e das populações nativas e escravizadas.

Sendo assim, se estabelece uma relação discriminatória e exploratória pela simples lógica da coisa: se o europeu se encara como aquele que leva a cultura, ele, então, passa a usar os recursos do Novo Mundo para consolidar sua própria cultura e impô-la nas populações nativas. Aliás, são as populações nativas e escravizadas que irão mais sofrer no meio do processo de construção do reino de Deus, porque elas vão ser extirpadas de sua identidade e cultura, tendo que sobreviver culturalmente no gueto e na marginalidade. Esse processo vai gerar uma desumanização de tudo que não é europeu. Se algo não é europeu, ele não tem cultura, se não tem cultura, ele não tem beleza, e se não tem beleza, ele não é humano.

Okay, mas e a cidade com tudo isso? Simples, nós da América Latina, principalmente, ainda refletimos em nossas cidades esse processo cristão de construção do reino de Deus, e é por isso que nossas cidades excluem e marginalizam mais que incluem. Porque a delimitação do reino de Deus diz, portanto, que há um reino que é profano, e esse profano — personificado antes nas populações nativas e escravizadas e hoje em seus descendentes — vai ser combatido.

A cidade latina e, logo, a cidade brasileira passa a ideia de que existe uma parte da cidade mais clara que é habitada pelo ser humano refinado, europeu, com cultura e beleza, e essa parte da cidade merece ser vivida, ser bela e prazerosa, e há uma outra parte da cidade, mais escura, mais perigosa, onde vivem aqueles sem beleza, sem educação e escrúpulos, que merecem ser combatidos, porque representam justamente a barbárie. A cidade brasileira inconscientemente repete a dinâmica da colonização portuguesa: um forte belo e europeu, rodeado de belezas naturais, mas que vive em pé de guerra com os “índios invasores”.

A dinâmica política da cidade brasileira, então, passa a ser primordialmente a do controle e da dominação. Era necessário para o europeu controlar a fauna, a flora e as populações, para manter sua dominação cultural e assim ter sucesso em construir o reino de Deus na Terra, que era sua missão cristã. E esclarecendo, não que eu acredite que as cidades europeias não sejam discriminatórias, muito pelo contrário, esse processo também ocorreu lá e ainda se reflete no continente. Entretanto, a Europa viveu tantas revoluções culturais, como Iluminismo, Primavera dos Povos, e até tragédias como o Holocausto, que fica insustentável para a identidade cultural do continente ainda manter uma relação de dominação e segregação na cidade. É por isso, aliás, que as cidades passaram a ser voltadas para o bem-estar da população.

Depois do Holocausto, o europeu entrou em crise com sua relação com o outro. As políticas passaram a tentar abraçar o diferente e de tentar construir uma cidade que harmonizasse pessoas de diferentes culturas (não que tenham sido sempre bem-sucedidas). Era insustentável ainda manter um pensamento que visse o outro de um modo tão maniqueísta após a morte de milhões de judeus por motivos justamente maniqueístas. Essa crise, aliada com o pensamento europeu de ser centro da cultura, das artes e ter o domínio de tecnologias e ciências, permitiu a construção de cidades e países com altíssima qualidade de vida.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos injetaram dinheiro na Europa e na América Latina, como uma forma de fazê-las aliadas na guerra ao comunismo. Entretanto, as ajudas norte-americanas se refletiram de modos completamente distintos. Na Europa, que o europeu passou a deixar de tentar reproduzir o “reino de Deus” para tentar de alguma maneira abraçar diferentes culturas, resultou no desenvolvimento de uma política de bem-estar social, que também servia de propaganda capitalista. Na América Latina, que ainda tem uma relação de dominação com o outro, resultou nas ditaduras militares, já que o latino-americano não tinha uma natureza (tão) europeia quantos os Estados Unidos, Austrália e Canadá, e por isso não são supostamente tão confiáveis, já que não tem a cultura e a beleza, e é isso, no final das contas que gera empatia e sentimento de humanidade. Então, gera um sentimento de certa forma inconsciente que é preciso dominar os que não são tão europeus, porque eles não têm cultura, logo não têm beleza, e logo não são humanos.

O Japão é um tipo de exceção no processo. Os japoneses também mantinham a mesma relação de dominação e desumanização com chineses, coreanos e outros povo do Extremo Oriente, porque justamente tinham a confiança que os europeus tinham de ser um berço de cultura, beleza e civilidade. Os Estados Unidos também ajudaram na reconstrução do Japão, e também resultou num país com cidades magníficas, com altíssimo nível de qualidade de vida e líder em cultura, arte e tecnologia.

Percebendo as relações dos europeus, principalmente dos holandeses, com a cidade e os equipamentos urbanos, eu me questionava o real motivo de eles viverem tão bem e a gente viver tão péssimo. É absurdo viver com medo de morrer todo dia, por causa da violência urbana, ainda mais em um país que só se envolveu efetivamente em uma guerra, e no século 19. E eu me questionava motivos além de históricos e econômicos. Ainda mais quando se tem tanto conhecimento quanto atualmente, e as cidades, o país e seus gestores ainda continuam cometendo os mesmos erros, mesmo quando há exemplos que comprovam o contrário. Não é falta de dinheiro. O Brasil é a sétima economia do mundo.

A primeira coisa que eu percebi foi que as cidades brasileiras limitam os seus habitantes no desenvolvimento de sua própria auto-estima. Não que eu ache que eu tenha descoberto a roda, mas falo de uma maneira mais nacional, no sentido de pertencer à Holanda e pertencer ao Brasil. Isso porque as relações de dominação e desumanização resultam numa péssima imagem de si mesmo, principalmente quando se é parte de regiões ainda mais periféricas ou de etnias historicamente marginalizadas. A péssima imagem de si mesmo, de ser de uma cidade, de um país, resulta numa população com falta de confiança em inovar, em pensar, em viver.

Observando meus colegas europeus e as didáticas em aula, sempre achei os europeus com uma relação de mais independência. Os professores eram mais duros e os alunos mais críticos com os outros, e sempre de maneira profissional. Eu não concordo com explicações como “o brasileiro é mais cordial”, até pelo próprio reducionismo. Então, cheguei a conclusão que as cidades da Europa dão o clima e o suporte necessário para ser independente mais cedo, se comprometer com mais assuntos, e ter hobbies mais variados, porque as políticas da cidade em garantir mobilidade, cultura e acesso, resultava numa população mais livre e mais confiante no entorno. E a confiança no entorno proporciona uma mentalidade mais independente.

Importante salientar que não estou falando de violência urbana em muitos aspectos, porque ela é resultado de fatores além do social. Apesar de uma cidade que dá oportunidade, que trata com igualdade seus habitantes e que, principalmente, estimula a confiança e a auto-estima de sua população, com certeza, terá índices mais baixos de violência. Isso, porque uma população que se acha com cultura, se acha uma população bela e, consequentemente, uma população humana. Entretanto, a violência depende de outros fatores, principalmente psicológicos, que não tenho conhecimento e por isso, não me estendo no assunto.

Concluindo, as cidades brasileiras são limitadoras, porque estão sempre refletindo um processo de dominação e desumanização, comum a muitas culturas, mas que está em fase de superação. A dominação e a desumanização são resultados da tentativa da criação do “paraíso na Terra”, porque a ideia de paraíso leva à ideia de inferno. As cidades brasileiras refletem essa dicotomia, com políticas que marginalizam e discriminam pessoas que a norma cultural não encaixam nos padrões de beleza. Porque a beleza é sinônimo de humanidade, e humanidade lhe garante direitos e privilégios, e por isso, não é interessante para setores mais conservadores propor um aumento na dignidade e na confiança de populações marginalizadas, porque isso reflete numa população mais confiante de si mesmo e mais contestadora, que exige mais mudanças. Uma população sem confiança, como a brasileira, tende a achar a dominação natural, porque aceita a norma cultural discriminatória.

As cidades brasileiras, então, devem passar a investir na auto-estima de sua população. Investir em auto-estima é investir em educação, que passe a valorizar o cidadão também como fonte de sabedoria, em saúde preventiva, que a pessoa se ame a ponto de prevenir as doenças e não apenas na emergência, é investir em mobilidade, para a população ter oportunidade de ir e vir para viver os ambientes urbanos. Porque um senso de auto-estima como cidadão forte e cheio de direitos, gera uma pessoa com maior confiança no entorno, no ambiente, uma pessoa que passa a respeitar e valorizar as relações urbanas. A confiança de que se é uma pessoa plena, que goza de direitos e é livre é o caminho para que as populações das cidades do Brasil passem a exigir uma cidade que respeite o outro como também outra pessoa e não como aquele que deve ser combatido ou dominado. A auto-confiança gera relações urbanas fortes, que geram populações livres e inovadoras, capazes de resolver problemas, e não uma população conformada e amedrontada, que deixa os problemas nas mãos daqueles que a dominam.