Escrever não paga as minhas contas, e a fotografia não me dá o que comer.

É.

Deu merda.

Ruim.

Fodeu total.

Alguém nasceu escritora na família.

Manda matar.

Minha irmã é desenhista, ilustradora, ela tem um dom. Deram a ela um lápis quando criança, e ela desenhou uma casinha mais bonita do que a dos outros colegas de classe.

Olha que fofo.

Não é lindo?

Mas alguém cagou em tudo.

A filha do meio é escritora.

A estranha não gosta de pentear o cabelo, passa tempo demais nos livros, consome cultura demais, pensa demais, fala demais sobre as coisas que pensa, quer ver o mundo do lado de fora. Pensa fora da caixinha. Não sabe colorir, muito menos sorrir. É velha demais pra esse mundo.

O que fizeram de errado?

A do meio quer fotografar o mundo, quer dirigir cenas, quer ser cineasta, acha o cinema melhor, desistiu da carreira brilhante com exatas. Quer descobrir porque no cinema é melhor.

Deu algo errado na mistura.

Quero ser escritora.

Mas as palavras não andam pagando as minhas contas, a fotografia não anda rendendo, e o cinema é quem está me batendo.

Quero ser cineasta.

Deu ruim.

Taca pedra.

A filha do meio passa muito tempo com as palavras. Anda se embebedando com elas. Consumiu Agatha Christine, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro.

Drogas pesadas.

Más influências.

A filha do meio quer dar voz pra quem é oprimido.

Quer dar asas a sonhos.

‘Tá se achando o Walt Disney.

Deu alguma coisa errada, mãe. Vamos mandar voltar. Nasci escritora, cineasta, pensante e querendo dar voz a tudo.

E me importando cada vez menos com o dinheiro.

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