
Cheiro de tinta
“Assunto que gostava era de tristeza e de sonho, do show do leandreleonardo que vai ter na cidade, vão sortear uns ingressos na rádio, de tinturas e de esmaltes vindos da Espanha, coisa da melhor qualidade, presente da Célia, lembra dela? Menina de quinze anos que trabalhava de doméstica pra dona da loja de tecidos.
Neguinha, neguinha mesmo, coitada!, um cabelo assim: dessa altura, mas tinha umas pernas de dar inveja — preto tem sorte, fica com perna bonita só de subir e descer ladeira. Ia trabalhar de shortinho, com aquelas pernas, uma cinturinha que mão aperta sem precisão de esforço. Não deu outra, perdeu a honra, né?, o pai não queria saber de moça perdida em casa sua. Sem eira nem beira, acabou pelas bandas de lá. Bastou alguns meses na Rua G para ela tirar a sorte grande e conhecer uma senhora distinta que levava meninas para serem manicures na Europa.
Ela queria vir embora, saudade, estava fora havia seis anos, queria viver de dar aula de espanhol ou montar salão de beleza. Quem sabe comprava até aquela casa na frente da minha, vazia entrava e saía ano, quatro cômodos e rodeada por um terreno baldio bastante adequado para abandono de recém-nascidos, deu no jornal e tudo!, e por essa função social os prefeitos desistiam da praça prometida com pompa e descerramento de placas. Nem todos lidavam bem com a agitação da Rua G, por isso, o anúncio de “aluga-se” se tornara praticamente uma tatuagem.
Depois de alguns meses de presentes mandados por correio, Célia voltou e, para o meu desgosto, instalou-se ali mesmo, independente de todas as promessas que eu fizera nos minutos antes da aula em que a professora obrigava a gente a rezar. Enquanto as vizinhas pareciam entusiasmadas, fiquei na janela que dava para a rua, o nariz encostado no cheiro de ferrugem, Algodão, já um rapazinho, espremido em meu carinho de raiva contida.
O assunto era como ela voltou bonita, um dos quartos vai usar para guardar sapatos, vai rifar uns que não servem, uns casacos maravilhosos, quem vai usar casaco nesse calor? quiçá em época de pecuária…, para inteirar o dinheiro pra comprar uns móveis que faltam. No mercadinho: e não é que a neguinha voltou até mais branca? O cabelo continua ruim, pelo menos não tem mais aquele jeito de sujo, ela teve a decência de usar um prendedor, não ficar aquela cabeleira armada parecendo que tá dando voz de assalto. No salão do meu pai: ela vai ser puta não, tem marido, tô pagando pra ver.
E tinha mesmo, mas daí o falatório era como o marido era esquisito, de chapéu e suspensório, alto demais pro meu gosto, caladão, tem cara daqueles bandidos de filme, louco, sei lá. Deve de ser louco, que tem alguma coisa errada com ele, ah isso tem, por que mais razão haveria de um homem alinhado, olho azul, escolher amasiar com uma neguinha? Que fosse puta, a cidade tá cheia de homem de bem que casou com puta, mas preta? Decerto não foi quisto por moça donzela digna de respeito e isso é sinal de que tem problema, melhor ficar esperto com esses dois, esse povo que vem do estrangeiro… Deve até usar droga.
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