Narrativa endossarcástica nº 5

Trancado sozinho numa sala e suando em bicas, Amâncio se desesperava com a falta de inspiração que fazia com que os textos parassem de emanar de seus dedos. Tentava desesperadamente escrever, mas nada saía. Foi quando teve a ideia de iniciar um ridículo exercício de metalinguagem proposto por sua própria mente, um mero truque para manter a escrita em exercício e, quem sabe, extrair narrativa enquanto ordenhava o desespero. Algum tempo se passou e os dedos já fervilhavam, orgulhosos em guiá-lo por um campo de quartas paredes ridícula e previsivelmente quebradas, quando o sarcasmo in natura que povoa todos os ambientes onde há vida se pôs a agir.

Computador travado. Caralho! Extremamente patético. Que escritor sério jamais passara por isso?

Imaginou Allan Poe tendo que lidar com o temperamento do Core 2 Duo com Windows XP que o destino lhe assignara. Isso nunca aconteceria. Tentou imaginar o que os antigos pensariam do seu ambiente de trabalho. Alguns dariam risada da patética simbiose homem-máquina; outros dariam tudo pra ter acesso a essa entidade misteriosa que protegia tudo que era escrito em um local inatingível; à prova das vacilantes doses de whiskey e impossíveis de serem apagadas por intermédio de sangue de nariz.

Olhou em volta e viu uma caneca feita de material reciclável. Dentro, água. Um ar-condicionado desligado, uma cadeira de escritório, uma mochila de cor berrante… Tudo completamente distante do glamour que a ficção-a-respeito-da-ficção o fizera imaginar. Tudo fruto de obras autorreferenciativas que pasme: não eram tão autorreferenciativas assim.

Decidiu que a sua seria a mais real possível, por mais desinteressante que isso possa parecer. Fantasiou com a eventual publicação após sua morte, em alguma coletânea curada por filhos e netos interessados em pagar alguma dívida ou financiar alguma extravagante viagem de férias. Alardeada por algum editor filho da puta procurando chacoalhar a indústria a partir do legado alheio. Mas isso já era ficcional demais, afinal, ninguém nem o conhecia. Nem legado ele tinha.

E se fosse para analisar de maneira fria…

Bom…

Melhor parar por aqui.

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