Orgulho, preconceito e Hand Spinners

[Esta é uma obra de ficção. Seus personagens e situações foram criados exclusivamente para fins de entretenimento e não possuem contrapartes no mundo real. Qualquer semelhança é mera coincidência.]


Passadas dez horas desde a última vez que meus dedos deram início a este último tormento, meu instinto de sobrevivência já entendeu que não há mais escapatória. Esta é, definitivamente, a última coisa para a qual eu jamais olharei. Meus olhos secam e se cruzam e a minha cabeça só não treme mais que as minhas mãos. Ou talvez tremam igualmente. Minha cabeça fantasia com um público ouvinte enquanto eu conto a ridícula história do meu fim e os meus neurônios se encaminham pra uma última falha. A gente fica mesmo meio sentimental antes de morrer, né? Igual nas novelas e filmes. Bastante patético, e é difícil pra mim admitir que ainda reside um quê de humano nas minhas entranhas. Sinto como se alguém estivesse me escutando, então, que se foda. Vou continuar minha rapsódia.


Sempre fui bastante reservado. A moral dos tempos atuais nunca me agradou, o mero diálogo com as pessoas e a detecção de seus anseios e pensamentos libertinos e anárquicos me causava revoltas tão grandes que eu preferia evitar o trato social.

Desde tempos imemoriais, eu me lembro de não aturar pessoas jovens, desde que eu mesmo compunha essa parcela detestável da sociedade. Eu nunca gostei de andar com os jovens (eles nunca deixaram que eu andasse), mas agora, pensando em retrocesso, eu também nunca me interessei em conviver com (eles nunca me levaram à sério) as pessoas mais velhas. Eu nunca gostei de conviver com as pessoas, então. A verdade é essa. Fodam-se elas.

Comunicadores como Marcelo Rezende, Datena, Alborghetti e semelhantes me deram durante a vida toda o respaldo para conservar minhas opiniões intactas. Não jogar videogames quando criança; não cometer pequenos delitos; não permitir a mim os prazeres da carne. Eu me senti vingado quando as demoníacas cartinhas de Yu-Gi-Oh sumiram das mãos dos jovens nas escolas e espaços públicos após uma reportagem ter ido ao ar pelas palavras de Gilberto Barros, o Leão. Mas o Leão tinha sido esquecido e ostracizado, Datena tinha virado YouTuber, Alborghetti já não passava de um cadáver e Marcelo Rezende estava fadado ao mesmo fim. Após os eventos do dia de hoje, eu talvez desejaria ter padecido da mesma doença que provavelmente levaria meu ídolo um dia. Ela teria salvo minha tão miserável vida da horrível monotonia obsessiva vindoura; teria atenuado meu sofrimento, suavizado meu vacilante e neurótico final.

Logo eu!

Hoje eu precisei utilizar o transporte público para ir ao trabalho. Quase não fui trabalhar, na verdade. Meu Monza, comprado de segunda mão, acabou por não dar partida. O filho da puta resolveu que a mim seria didático relembrar minha origem, aquela de onde eu nunca deveria ter saído. Eu sentia o sarcasmo e a satisfação sádica no arranhar vacilante daquele motor velho e roto. Peguei, então, alguns trocados, esperei longos minutos numa parada de ônibus que conseguia unir o frio cortante daquela manhã com um calor suado e azedo que emanava das pessoas e finalmente embarquei rumo à estação de metrô. Como eu odiava aquela estação de metrô! Agora, em retrocesso, eu até sinto falta da impensável sensação de poder pisar na estação. Seria um prazer sair do ciclo que em breve vai escaralhar completamente os meus neurônios.

Eu sempre gostei de pensar nos ônibus como uma espécie de campo de concentração para pobres: cobre alguns trocados, bote nas ruas e em breve você terá um contêiner lotado de gente iludida, apressada e cheirando a águas de colônia Natura reunidas ao seu bel-prazer. Sempre que um motorista deixava de parar em um ponto previamente sinalizado, eu me deleitava ao saborear a raiva incontida e mal direcionada que cuspiam aquelas pessoas patéticas. Dependendo do meu humor, gostava de fantasiar com a possibilidade de um sequestro, mas aí lembrava que o motorista era só outro fodido descontando seu sadismo em pessoas aleatórias.

É claro que a minha detestável condição humana ainda existia, então eu precisava externar toda a minha (castração) indignação em algum lugar. Passei a criar perfis fake em sites de notícia: por lá eu destilava todo o ódio que me consumia e ainda conseguia alguns aplausos. É claro que o protesto pirracento contido em cada dislike me fazia espumar de raiva, mas em geral (meus semelhantes) o populacho concordava comigo. Então, naturalmente, quando esses tais hand spinners surgiram, eu encontrei neles uma puta oportunidade de me autoafirmar. Na minha época, os brinquedos tinham nomes inteligíveis e em língua portuguesa e sempre serviam a um propósito maior que meramente girar. A legião de fãs do meu débil e anal perfil do G1 me coroou com a dose matinal de likes que eu precisava pra não sucumbir, e eu ainda sentia a superioridade sagrada de cada dia quando entrei na porra da linha vermelha. Ah, São Paulo! Terra de filho da puta.

Eu não gostava de ouvir música, mas vestia headphones enormes pra não correr o risco de ter que conversar com algum (outro) carente que pudesse me escolher. Eu estava sentado no trem fingindo ocupação quando entraram dois marginais no meu vagão. Ostentando um riso debochado e com a postura torta, ele adereçavam impropérios um ao outro e pareciam se divertir com isso. Da mochila velha, o primeiro deles tirou dois ou três hand spinners e entregou um de amostra ao amigo mais articulado; que passou a oferecê-lo em voz alta aos passageiros. No tom, um quê de ameaça.

– Chegou qualidade aqui pra você, passageiro, é o Spinner que já é febre na escola, pro menino, pra menina! É pra acabar o estoque antes do guarda aparecer, dez reais cê leva o spinner. Caiu o preço aqui no shopping trem! — enquanto falava isso, derrubou um dos brinquedos teatralmente no chão, pegou com um floreio e uma piscadela (pra mim?) e prosseguiu: — mais alguém, alguém mais?

Ninguém quis. Nos pequenos monitores que permeavam o vagão, uma mensagem brilhava numa fonte moderna: NÃO ALIMENTE O COMÉRCIO CLANDESTINO NOS VAGÕES DO METRÔ.

Senti um aperto no peito e quis sair dali imediatamente. Na pressa, acabei escolhendo a mesma porta dos dois delinquentes, que ao abrir revelou um guarda do metrô inspecionando atentamente à procura de vendedores. O mais esperto dos dois, o garoto propaganda, percebendo que seria revistado e com o brinquedo reluzente ainda em mãos, o colocou sorrateiramente no meu bolso traseiro e saiu andando em direção à escada, pro guarda que a contragosto o declararia inocente momentos mais tarde. Não tive (coragem) ímpeto pra delatá-lo, apenas troquei de vagão e prossegui viagem. No bolso da calça jeans, descansava meu último algoz.


Ainda que a contragosto, peguei o brinquedo e passei a examiná-lo. Plástico barato coberto por uma pintura reluzente, luzes de led em cada um das três extremidades arredondadas, um rolamento no centro coberto por mais plástico brilhante. Ouvi risos do outro lado do vagão, o esgar malcontido de quem despreza algo ou alguém. Um velho me olhava e chacoalhava a cabeça em negação ao ver o brinquedo que eu tinha em mãos. Me senti exposto como raras vezes na vida. Era perfeitamente capaz que aquele decrépito já tivesse curtido algum comentário meu sobre como os jovens são desocupados e vagabundos hoje em dia; mais preocupados com seus brinquedos de girar do que com qualquer outra coisa. É claro que a minha reputação no G1 estaria intacta; escondida no personagem que criei: um médico bonitão, viril e homofóbico, cujo másculo rosto era de uma foto stock que achei no Google. A vida que eu adorava viver nos horários de almoço e nas madrugadas. Nem mesmo a presença escarnecedora do velho me impediu de seguir o ímpeto de girar aquele brinquedinho doentio, e meu leve e envergonhado impulso o fez girar por aproximadamente trinta segundos. Trinta segundos durante os quais eu não consegui desviar meus olhos da psicodelia provençal que a minha visão presenciava.


Saí da minha mesa em um rompante quando o alarme de almoço acusou o meio-dia. Meu estômago se revirava em um carrossel de entranhas, a sensação horrível de fraqueza de quem só colocou um café puro e aguado na boca pela manhã e passou ela inteira sem comer mais nada. Atravessei a rua correndo e pedi meus dois salgados tão logo cheguei no Dalila. Tirei o brinquedo do bolso e passei a examiná-lo de novo. Olhar praquela coisa me dava uma sensação de calmaria ansiosa, a sensação de alívio e culpa que um viciado sente ao cheirar mais uma carreira ou queimar mais uma pedra.

Girei.

Os LEDs, com seus brilhos padronizados girando rapidamente naquele eixo redondo, me faziam pensar em tudo quanto fosse possível. Passei alguns segundos naquele transe, observando o brinquedo com fixação doentia, quando meus olhos começaram a doer e eu comecei a enxergar sangue. Inflado por uma curiosidade crescente e mórbida, me concentrei naquela visão. O sangue escorria pelas minhas mãos, quente, viscoso e cheirando a galinha morta. Eu sabia que aquilo era fruto da minha imaginação, e depois de um tempo, a visão macabra até começou a me agradar um pouco. O sangue espirrava pra todos os lados com o giro das hélices. Na confusão de cores e padrões que emanava delas, consegui enxergar de onde ele jorrava. Um animal, talvez uma zebra ou um cervo, estava caído no chão, seu corpo já pútrido estava tomado por um enxame de moscas. Eu enxergava tudo na primeira pessoa, e aquelas (minhas) mãos remexiam em suas entranhas abertas por um rasgo na barriga. Larvas amarelas cor-de-pus, inquietas e convulsionantes, tomavam conta de todo o corpo e começaram a subir pelos meus braços. Percebi que precisava vomitar. Desviei os olhos do brinquedo, mas eles logo voltaram pra ele, e quanto mais eu lutava, mais as minhas órbitas eram arrastadas em direção àquele eixo psicodélico, sujo e fedido. Percebi que eu só poderia desviar o olhar quando o giro das hélices cessasse. Meus olhos doíam como se tivessem sido pegos por unhas compridas e afiadas, unhas que não deixavam que eu olhasse pra outra coisa que não o

– Ângelo, caralho! Pega essa porra que eu tenho mais o que fazer. Num tá vendo que tá cheio de gente hoje?

Giba largou as duas coxinhas no tampo de mármore ao meu lado e começou a chacoalhar os meus ombros com suas mãos engorduradas, cujos dedos ostentavam unhas sujas e quebradiças, as mesmas unhas que ele encostava nos meus salgados todo dia. A conveniência de pagar só dois reais pra almoçar acabava me saindo cara, e eu imaginava todo tipo de coisa enquanto comia aquela massa seca e aquele recheio duvidoso. Até cabelo achei um dia. O spinner parou de girar e eu consegui desviar a cabeça inteira daquela visão inebriante com um grito. Olhei pro Giba e depois pras duas coxinhas, das quais larvas amarelas cor-de-pus começaram a sair por um buraco, tomando conta de todo o prato. Vomitei bile e café por todo o balcão e tudo que consegui fazer foi retornar a visão ao meu miserável garçom e entrepreneur, que estava todo respingado de vômito e com o mais puro choque estampado em seu rosto. Senti o spinner caindo das minhas mãos, meu corpo cedendo e a minha visão escurecendo.


– Ângelo! Ângelo, acorda! putaquepariu, acorda! — suplicava debilmente meu chefe, um homenzinho atarracado, acelerado e incansável que gostava de vestir roupa social com colete, gravata e sem paletó. De onde eu estava, deitado, consegui enxergar a substância esbranquiçada que sempre povoava o fundo de suas narinas. Se a equipe dele tinha os melhores números, ele podia com certeza acender uma vela e agradecer pela existência da cocaína todas as manhãs.

Assegurei a ele que tudo estava bem, e depois de muito tempo se certificando de que eu não vomitaria litros amarelados e desmaiaria novamente, ele acabou me dando o dia de folga. Agradeci sem jeito, me pus a andar e já estava quase chegando novamente na estação de metrô quando tateei instintivamente meus bolsos em busca do maldito spinner e não o encontrei. Senti uma dor fulminante no peito e precisei me sentar na escada da estação antes que caísse estatelado ali mesmo e fosse levado definitivamente pra um (manicômio) hospital. Era como se eu tivesse uma ligação com aquele brinquedo que nos faria ficar juntos até meu último segundo de vida, e essa merda tinha ficado no bar do Giba. Voltei correndo pra lá, e quando cheguei na porta encontrei alguns carros da polícia e um outro identificado pela inscrição “Agência Nacional de Vigilância Sanitária”. Meu velho amigo e empurrador de lanches com a unha estava sentado no banco de trás do carro da polícia com uma cara de culpa e confusão enquanto olhava pro seu bar, agora fechado e com uma plaquinha feita em sulfite colada no portão. Não tive (estômago?) pra ir ler. Preferi voltar pro meu caminho antes que alguém me visse ali novamente. Desisti até mesmo daquele brinquedo idiota. Eu nunca tinha visto uma instituição pública trabalhar tão depressa no Brasil. Acho que ninguém tinha.

Ao subir novamente as escadas da estação, coloquei a mão no bolso traseiro da calça num gesto automático e senti o metal frio me agraciar novamente com sua presença. Ele (estava lá o tempo todo) tinha (voltado?) ao seu lugar.


Passei o caminho de volta inteiro com o spinner nas mãos, mas sem coragem o suficiente para girá-lo. Eu conseguia sentir uma frequência física e sonora emanando daquele rolamento, me convidando a fornecê-lo um novo impulso para então observar a nova tragédia que ele tão orgulhosamente me apresentaria, mas eu sabia que as consequências provavelmente não seriam boas. As pessoas no metrô me observavam com certa curiosidade: um homem alto, magro, com a pele macilenta e amarelada suando em bicas, cuja camisa social de um tom laranja-claro e patológico sem paletó nem gravata pousava amarrotada em um corpo sem graça e sem glórias. Eu trocava olhares apreensivos com o spinner empunhado com firmeza na minha mão direita, e ele me olhava de volta, provocativo e convidativo, me oferecendo uma saída pra todas as insatisfações que me afligiam. Tudo que eu precisava fazer era girá-lo e, então, desistir de lutar. Perder a influência sob os meus próprios atos e deixar de responder por eles. Ir parar num manicômio, quem sabe. Fácil e indolor. Ele não me abandonaria com facilidade, e mesmo se as outras pessoas ao meu redor insistissem em tirá-lo da minha posse, eu sei que ele voltaria pra mim. Enquanto eu fantasiava com o delicioso e consciente plano de abandonar o estado de sanidade, percebi que meu pião de dedo girava incessantemente na frente dos meus olhos. Dessa vez, a sensação foi boa. Ele parou e eu, satisfeito, desci do trem. Eu precisava voltar, tinha passado cinco estações desde que a minha ficou pra trás. Mas isso já não importava mais.


Entrei no trem que ia para a direção contrária, girei meu amado brinquedo mais uma vez e, quando este parou de girar e eu pude finalmente desviar meu olhar para suas periferias, me dei conta de que já estava em casa. Não sei se durante o trajeto de volta o brinquedo me liberou algumas vezes para que eu pensasse no caminho ou se voltei pra casa de maneira totalmente automática, protegido pela diabólica aura que emanava do meu novo e exótico depressor neural. Tudo que sei é que estava novamente em segurança; eu e meu messias de plástico. Aquele que, aos olhos da sociedade, me transformaria num louco. Que me levaria ao manicômio mais próximo. Que, pro resto da minha vida, me mostraria as mais belas imagens, me isentaria das mais degradantes responsabilidades. Aquele que me protegeria das dores do mundo real, que me ofereceria as mais doces ilusões. As mais doces e gráficas imagens de assassinato, de infestação, de vermes, de pus. De campos de lavanda, de mulheres me amando, de amigos rindo das minhas piadas, de fãs do meu trabalho. Bastava girar e esperar a ação daquelas hélices sobre o meu cérebro.

O único problema é que, cada vez que eram girados os rolamentos da salvação, mais tempo eles demoravam pra cessar seu movimento. Mais tempo eu precisava olhar pra ele, e somente pra ele; e menos tempo eu tinha pra fazer todo o resto. Me dei conta de que nem mais aquele café preto e aguado repousava no meu estômago, dados os eventos do almoço do dia, que já me parecia tão distante no tempo; tão passado; tão doloroso e tão superado. Já faz doze horas desde que eu cheguei em casa e dez desde que ofereci ao spinner meu último impulso. O girar dessas hélices é tudo que minha mente precisa pra sobreviver, mesmo que meu corpo não concorde com ela. Mesmo que mil sensações horríveis percorram meu corpo a cada cem sensações boas. Sem elas, eu já não sou nada.

Passadas dez horas desde a última vez que meus dedos deram início a este (tormento?), meu instintos de sobrevivência já entenderam que não há mais escapatória. Esta é, definitivamente, a última coisa para a qual eu jamais olharei. Meus olhos secam e se cruzam e a minha cabeça só não treme mais que as minhas mãos. Ou talvez tremam igualmente.

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