Venenos

Um conto sobre inovação

Era um dia como todos os outros, em uma cidade como todas as outras.
Walter Jones, um investigador da polícia, estava em sua mesa quando seu telefone tocou.

- Jones?

- Sim. — respondeu o investigador

- Precisamos de você aqui na Market Street. Urgente! Uma cena horrível!

Juntando todas suas coisas que estavam pela mesa, saiu da delegacia, entrou em seu carro e correu para o local.

O crime ocorrera em uma rua bem movimentada e conhecida na cidade. Ao chegar lá, Jones teve dificuldades em se aproximar da cena pois diversos curiosos se aglomeravam, em busca de respostas sobre o que acabara de acontecer. Com algum esforço, Jones conseguiu passar pela multidão e adentrou a cena do crime.

Haviam quatro cadáveres expostos no chão. Pareciam que estavam mortos há um bom tempo mas só agora foram encontrados. Ao se aproximar de um deles, para observa-lo melhor, um policial que já estava na cena o interrompeu:

- Assassinato. Sem sombra de dúvidas. — disse o policial, se dirigindo a Jones.

- Não posso concluir isso. Ainda não os investiguei.

- Mas é um caso óbvio. Quatro mortos nestas condições? Alguém ou alguma coisa os matou.

Ignorando o policial, Jones insistiu e se aproximou para iniciar sua investigação.

Passado algum tempo, o investigador deixou os corpos e foi conversar com o chefe de polícia, que acabara de chegar ao local.

- Chefe?

- Sim, Jones.

- Pode encerrar o caso.

- Como? Encerrar o caso? E quanto aos autores do crime? Precisamos acha-los! E já! A imprensa está nos colocando contra a parede. Todos querem respostas.

- Suicídio — Jones o interrompe

- Suicí… O quê?! Você ficou maluco?

- Isso mesmo. Não foram mortos por alguém. Eles se envenenaram.

Inconformado com a explicação que acabara de ser dada, o chefe de polícia perguntou de forma explosiva:

- Como quatro empresas deste tamanho, com toda sua experiência e com tantos anos na liderança de seus mercados, podem ter se matado? E, ainda por cima, envenenados!

- Não acredito que isso tenha sido proposital. — Jones respondeu calmamente — Estas empresas tomaram venenos diferentes sem mesmo saber o que estavam ingerindo.

- Prossiga, Jones! — falou o chefe de policia, de forma grosseira, ainda não acreditando no que estava ouvindo.

- Na primeira empresa, eu encontrei um bilhete que dizia “Dá trabalho demais.”, o que me leva a crer que esta empresa se envenenou com “Preguiça”. Com tanto tempo no mercado, fazendo o que sempre fez e da forma que sempre fez, ela achava melhor não se reinventar pois acreditava que “daria trabalho demais”. — Jones continuou — A segunda foi envenenada por “Soberba”, uma substância letal que, mesmo em pequenas doses, é capaz de matar em pouquíssimo tempo.

- E como você descobriu isso? — indagou o chefe de polícia

- Esta empresa era a mais experiente das quatro. Foi a pioneira de seu mercado. Encontrei doses de “Soberba” junto ao seu cadáver. O que me leva a crer que se viciou por esta substância e a tomou durante anos. Depois de muito tempo ingerindo isso, uma empresa passa a achar que não precisa inovar. Tem ilusões constantes de que será sempre a líder do mercado e uma sensação exagerada de invencibilidade.

Neste momento, todos os policiais e repórteres já estavam ao redor de Jones, escutando atentamente a tudo o que dizia.

- A terceira e quarta empresas foram envenenadas por substâncias aparentemente inofensivas que, tomadas em doses constantes, fazem um estrago, “Medo” e “Miopia”. A primeira substância paralisa a empresa diante de mudanças. A segunda a deixa incapaz de enxergar grandes oportunidades no futuro pois só a permite enxergar o hoje e o agora.

- O senhor pode nos dar mais detalhes sobre estas substâncias e seus efeitos? — gritou um dos repórteres

- O “Medo” geralmente é ingerido quando surgem novidades. Sempre que há alguma mudança tecnológica, cultural, política ou social, algumas empresas preferem fazer uso do “Medo” ao invés de olhar como uma oportunidade. Com isso, aparentemente acabam se blindando contra estas mudanças mas, na verdade, estão apenas se distanciando da realidade. Quanto a “Miopia”, só posso dizer que é uma substância cruel. Ela faz com que empresas achem que estão fazendo a coisa certa, por fazer com que se foquem completamente em suas tarefas diárias, mas esquecem de olhar para a frente e enxergar tendências, ou seja, grandes oportunidades.

- Ok. Você quer dizer que estas empresas morreram por causas diferentes. Mas há alguma ligação entre elas? — perguntou, por fim, outro repórter.

- Com certeza, sim. Embora tenham sido envenenadas de formas distintas, uma coisa é semelhante em todas elas, estavam em sua zona de conforto.


Escrito por William Freitas em 29 de agosto de 2016