É impossível ser um homem bom

Carta de Flannery O’Connor a Shirley Abbott

Ilustração de Greg Ruth

17 de março de 1956

Muito obrigado pela cópia do artigo. Escreves muito bem, de fato, e com um grau de sofisticação maior do que eu podia ter reunido quando tinha tua idade.

Diria que, em geral, há menos paixão e mais estrutura do que sua explicação dá a entender, mas decerto considero um trabalho digno da máxima credibilidade. Há apenas duas coisas que gostaria de questionar. Uma só questionar. A outra tenho de contradizer.

Aquela que questiono: “Sua mensagem é imoralista, no sentido gideano”. Não sei qual é o sentido gideano. [André] Gide é um dos poucos escritores que realmente me dá náuseas, então, naturalmente, não sou uma autoridade nele. Minha “mensagem” (se queres chamá-la assim), no entanto, é altamente moral. Agora, se é “moralista” ou não, não sei. Em todo caso, creio que o senso moral do escritor deve coincidir com o seu senso dramático, e isso quer dizer que o juízo moral tem de estar implícito no ato da visão. Vamos dizer tudo às claras: escrevo do ponto de vista da ortodoxia cristã. Nada me é mais repulsivo do que a ideia de pôr-me a criar um pequeno universo de minha própria escolha e propor uma mensagenzinha imoralista. Escrevo com uma fé sólida em todos os dogmas cristãos. Não considero que isso de modo nenhum limita minha liberdade como escritora; aliás, creio que amplia, em vez de diminuir, a minha visão. É bem popular a crença de que, para ver com clareza, não se deve crer em nada. Isso pode funcionar bem se estás observando células num microscópio. Não funcionará se estás escrevendo ficção. Para o escritor de ficção, não crer em nada é não ver nada. Não escrevo para levar uma mensagem a ninguém, uma vez que tu bem sabes que não é este o propósito do romancista; mas a mensagem que encontro na vida e vejo é uma mensagem moral.

Aquela que tenho de contradizer segue-se da anterior: “… ela tão-só afirma que é provavelmente impossível saber como ser um (bom homem)”. De jeito nenhum. É possível saber. Deus se fez homem em parte para ensinar-nos, mas é impossível ser um homem bom sem a ajuda da graça. Naturalmente, cada história é uma afirmação única — uma experiência é a melhor palavra — e nenhum significado abstrato pode ser extraído dela, mas se dizes “ela tão-só afirma”, careces de algo teologicamente mais preciso.

Deus se fez homem em parte para ensinar-nos, mas é impossível ser um homem bom sem a ajuda da graça.

A verdade em questões como esta em grande medida sempre soa mais enfadonha do que gostaríamos de acreditar. Muitos de meus admiradores mais fervorosos ficariam muito chocados e perturbados se percebessem que tudo que creio é inteiramente moral, inteiramente católico e que são essas crenças que conferem à minha obra suas principais características.

Gostei muito do que fizeste com os negócios agrários. Não os tinha visto mencionados em conexão com minha obra e acho que deveriam ser.

Flanney O’Connor, The Habit of Being. New York: Farrar, Strauss and Giroux, 1988, p. 147–48.