O escândalo da destruição de livros

A gritaria em torno da notícia de que os livros não vendidos da Cosac Naify serão enviados para destruição (isto é, comercializados como mero papel) fez-me lembrar de dois livros deliciosos para quem ama livros — aquilo que chamamos bibliófilos. Refiro-me a O Prazer de Pensar, do psiquiatra britânico Theodore Dalrymple, e, claro, Não Contem com o Fim do Livro, de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière.

Cito a seguir uma passagem de cada um, porque são mesmo saborosos. Começo com Dalrymple:

Livreiros contaram-me o que os bibliotecários fazem com as coleções sob seus cuidados, uma vez que têm sinal verde para livrar-se delas. É verdade que livreiros são como pescadores, não acreditam nas histórias que os outros narram, considerando as que eles próprios contam como as únicas dignas de crédito; com frequência, livreiros me dizem para não acreditar no que eles próprios dizem.
Um deles me disse, há pouco tempo, que passou a pé pela faculdade de uma cidadezinha. A faculdade não era famosa por suas contribuições, tampouco por transmitir conhecimento útil ou por dar bolsas, mas a sua biblioteca tinha adquiro livros raros de grande valor. O livreiro encontrou esses livros na beira da calçada fora da faculdade, pois, não tendo sido consultados durante anos, ou mesmo décadas, agora eram considerados como desnecessários.
Reconhecendo-os imediatamente pelo que eram, o livreiro foi à faculdade e dirigiu-se à bibliotecária chefe. Ele se ofereceu para comprar os livros, e ela, com a perspicácia comercial que é uma das principais características da burocracia britânica, suspeitou que ele estivesse tentando roubar a faculdade (com isso, é claro, ela queria dizer ter lucro). Contudo, ele insistiu, e finalmente a convenceu, contra a sua vontade, acreditando que algo era melhor do que nada. Ele lhe deu um cheque. Mais tarde ele ficou sabendo, por intermédio de um membro júnior da equipe da biblioteca da faculdade, que, depois da sua partida com os livros raros, ela convocou uma reunião com os membros da sua equipe e disse-lhes que na próxima vez que fossem se livrar de livros deveria cobri-los para que ninguém a incomodasse.
Outro livreiro contou-me uma história sobre a biblioteca central de uma pequena cidade provinciana: esta tinha história e tradição literária bastante notáveis. A biblioteca central estava saindo de uma velha sede, magnífica construção de mármore, requisitada agora para acolher escritórios de burocratas. O tamanho da nova sede significava que o número de livros tinha que ser reduzido, então o bibliotecário chefe decidiu livrar-se de todos aqueles volumes velhos com capa de couro, raramente ou nunca consultados pelo público da cidade. Um dos funcionários, um pouco incomodado com o descarte em massa e a eliminação de centenas ou milhares de exemplares velhos, levou alguns ao livreiro, entre eles a primeira edição de Malthus, de muito valor. O livreiro mostrou-me a edição.
Ingenuamente, perguntei por que o bibliotecário havia preferido jogar fora os livros em vez de vendê-los. Pude ver certa lógica (a de um selvagem, mesmo assim havia uma lógica) no ato de retirar esses livros não consultados das prateleiras; mas por que não ganhar dinheiro vendendo-os?
A resposta, disse o vendedor, era simples. Há uma regra na Câmara que diz que se algo que a ela pertence for vendido por mais de cem libras, a venda tem que ser previamente aprovada. Evidentemente, isto seria impossível quando se trata de centenas, talvez milhares, de itens. A Câmara logo não faria mais nada a não ser aprovar a venda de seus livros. Era muito melhor, em termos de eficiência e de gestão do tempo, livrar-se deles como se fossem embalagens de supermercado ou latas usadas de refrigerantes.
Theodore Dalrymple, “Inimigos dos homens”. In: O Prazer de Pensar. Trad. Margarita Lamelo. São Paulo: É Realizações, 2016, p. 33–34.

E agora Umberto Eco e Jean-Claude Carrière:

JCC: Conto-lhe a esse respeito uma visita à diretora dos Arquivos Nacionais, há uns dez anos. Convém saber que diariamente, nos Arquivos, na França como em todos os países que possuem algo similar, um caminhão vem buscar um monte de papéis velhos que houveram por bem destruir. Pois, naturalmente, é preciso abrir espaço para receber o que entra diariamente nos Arquivos. Nesse caso também, é preciso destruir, é preciso filtrar, é a lei do mundo.
Antes de o caminhão vir pegar sua carga, às vezes eles chamam alguns “papeleiros”, amantes de papéis velhos, atos de cartório, certidões de casamento, que vêm e se servem gratuitamente no que vai ser destruído. A diretora me contou que um dia chegou a seu escritório e se preparou para entrar no perímetro do prédio, quando um desses caminhões saiu e passou bem em frente a ela. É a ideia, de que gosto muito, do “olho treinado”. Do olho que aprendeu a ver, do olho que só esperava aquilo. Ela então se afastou para deixar o caminhão sair e viu, saindo de uma grande trouxa, um pedaço de papel amarelecido. Mandou o caminhão parar imediatamente, desamarrar o barbante, abrir o embrulho em questão e deu com um dos raros cartazes conhecidos de L’Illustre-Théâtre de Molière da época em que ele ainda se apresentava na província! Como o cartaz chegara lá? E por que o mandavam para a incineração? Quantos documentos preciosos, livros raros, foram entregues à destruição por simples distração, inadvertência, negligência? Os negligentes fizeram mais estragos, talvez, do que os destruidores.
Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, “Livros que fazem de tudo para cair nas nossas mãos”. In: Não Contem com o Fim do Livro. Trad. André Teles. Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 125–26.

As histórias narradas nesses livros estimulam a imaginação. Já estou pensando em como, num catálogo de livros raros de 2070, haverá a descrição de como um exemplar do livro X foi contrabandeado pelo funcionário da usina de reciclagem que, em vez de lhe dar o destino esperado, ousou escondê-lo e vendê-lo no mercado paralelo. Vejam que divertido: o que hoje parece um escândalo, no futuro, será uma narrativa. Ou seja: o livro morto alimentará os livros vindouros. Espero ao menos que estes tenham mais sucesso que aqueles.

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