Carrocinha pós-moderna

A história de Pastor, um cachorro pastor alemão que foi levado por uma carrocinha um tanto peculiar

Carrocinha: Veículos com laçadores passavam para levar os animais de rua. Hoje as políticas de recolhimento foram atualizadas. (Foto: Acervo/Estadão)

Estávamos almoçando quando ouvimos os gritos desesperados de um homem. Corri, subi as escadas e olhei pela janela do quarto que dava para a rua de trás. Lá embaixo, um pastor alemão esmigalhava raivosamente a perna de um rapaz. “Pára, pára!”, ele gritava. Uma moradora tomou a rápida decisão de atormentar o cachorro jogando água com uma mangueira. O resultado demorou, mas o cão (que em pé deveria ter a altura dela) finalmente desistiu. O rapaz ainda gemia de dor e segurava sua calça jeans toda ensopada de sangue.

Pastor.
Este era o nome que os moradores do Jardim Internacional haviam dado ao cachorro. Ele havia sido abandonado e fora buscar abrigo inocentemente no bairro. Talvez porque lá morassem muitos de sua matilha. Pastor uivava todos os dias pontualmente às dez horas da noite. E seus comparsas de bairro o respondiam e juntavam-se a ele, mesmo que do lado de dentro dos seus portões. À meia-noite, Pastor era vencido pelo cansaço e parava. Dormia ao lado dos potes de água e ração que as senhoras do bairro colocavam para ele. Às vezes a comida vinha com arroz para dar sustância.

Marcos, o moço do bairro que havia sido mordido, era o candidato a adotar Pastor. Todos os dias, o rapaz, esguio que era, visitava o animal e fazia companhia para ele. Era comum ver o cão abanando o rabo, recebendo carinho no rosto e lambendo as mãos de Marcos. Parecia que eles já eram amigos há muito tempo. Era uma daquelas cenas dignas de filme da Sessão da Tarde.

Mas uma certa tarde Pastor não estava em um de seus melhores dias. O dono da casa em frente à calçada, onde Pastor escolheu se abrigar, batera no cachorro a pauladas. Aquela não tinha sido a primeira vez que o vizinho fazia o toco cantar nas costas de Pastor, desde que o cachorro escolhera o cantinho para dar seus uivos pela noite. Naquele domingo, o responsável pelos maus-tratos só deu com as caras na rua para bater em Pastor. Seria aquele o dia em que Marcos finalmente levaria o mascote para viver com ele.

Mas durante a manhã toda os moradores do Jardim Internacional batalhavam para tentar acalmar o cachorro. Agora Pastor não estava mais manso. Ele estava arredio e distante. Dava passos para trás como que pegando impulso para atacar. Os gritos de “cuidado” e os rosnados já se ouviam desde que aquele vizinho tinha batido no cão. Nem Marcos, o mais novo amigo do fiel Pastor, conseguiu se aproximar dele.

Mas o ataque foi desferido. E quem estava na linha dos dentes era Marcos.

Só depois de muito tempo a polícia e a ambulância vieram ao resgate levar o rapaz. Mas não foi só Marcos que eles levaram. Pastor também foi de viagem no camburão. Assim. Feito bandido. Feito gente… Ficou acanhado, olhando para a rua com aqueles olhinhos baixos típicos de quando eles aprontam alguma. A verdade é que ninguém sabe o fim que o animal tomou. Alguns dizem que ele virou cão de polícia…

Outros dizem que a polícia fez com o bichinho o que ela costuma fazer nas favelas do morro.

O vizinho da paulada continua solto.


O cachorro pastor alemão, o vizinho, o rapaz que queria adotar o cão e os episódios da mordida e da paulada realmente aconteceram, não necessariamente com esses nomes. O fim que deu o autor dos maus-tratos continua uma incógnita e não é, necessariamente, certeza que ele prossegue em liberdade.