Por que não estamos com medo de uma cyberguerra?

Imagem da guerra no Iêmen (Reuters)

O ano de 2016 foi marcado por uma onda de notícias sobre ataques cibernéticos. Primeiro, em plenas eleições americanas, um suposto envolvimento da Rússia no hackeamento do Partido Democrata, beneficiando a candidatura do magnata Donald Trump. Depois, um ataque à empresa Dyn, uma provedora de rede dos Estados Unidos, que instabilizou diversos sites americanos. Dentre eles? Twitter, Netflix e o sistema da Visa.

É claro que os Estados Unidos não são vítima alguma nesse processo, dado todo o esquema de vigilância que Edward Snowden denunciou em 2013. Um dos maiores investimentos do país hoje está em segurança virtual. Mas a questão é: nem metade desses ataques e conflitos cibernéticos chegam ao conhecimento da população. Hoje, esse é um dos principais motivos para acharmos que está tudo bem na internet.

A outra questão é que uma possível cyberguerra não é um elemento palpável. Por ser um elemento novo no jogo político internacional, ainda não conseguimos dimensionar nas nossas cabeças quais podem ser as repercussões desastrosas de um conflito “pela internet”. Então, vamos tentar exemplificar na prática com um caso bem conhecido:

O Stuxnet foi um vírus que invadiu o sistema de turbinas das usinas de enriquecimento de urânio no Irã. O caso aconteceu em 2010 e a Kaspersky Lab, uma desenvolvedora de antivírus, descobriu que o worm foi criado pelo governo de um país. Não se sabe qual país foi esse, mas danificar a indústria nuclear de uma país poderia ter sido considerado um ato de guerra.

Isso nos leva a um terceiro ponto. Conflitos cibernéticos não criam uma guerra apenas no ciberespaço. Eles se agregam a uma guerra territorial ou mesmo podem desencadear uma. Dizer que uma cyberguerra é um risco iminente não quer dizer que o perigo migrou de ambiente. Quer dizer, apenas, que criou-se mais um. Uma vez conversando com Francisco Brito, diretor do InternetLab, ele me disse que hoje é tão crucial defender os sistemas em rede de um país quanto seria crucial defender o Canal do Panamá em um período de guerra, por exemplo. Chico estava certo.

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E ela também não é menos perigosa, mesmo dentro de um espaço virtual. Além de poder provocar uma guerra territorial, retaliações cibernéticas contra qualquer país podem violar direitos humanos, como o de acesso à informação, liberdade de expressão e de associação. Esses direitos já foram reafirmados pela própria ONU.

É claro que não devemos entrar em pânico. Antes de falarmos em uma guerra cibernética, é preciso ponderar a que nível os países estão realmente dispostos a arriscarem entrar em uma guerra territorial. É impossível falar de cyberguerra sem falar de conflitos políticos que podem desencadear revides físicos. Apesar de um novo ator tecnológico nas relações internacionais e de um clima político desconfortável no mundo todo, fica a pergunta: será mesmo que vamos entrar em uma guerra?