A Bela Morte do Capitão

Domingos

Meu pai morreu num sábado, 15 de novembro, quando eu tinha 9 anos. Foi a primeira morte na minha família. A primeira vez que fui ao cemitério. Inaugurou uma parte inegociável da vida: o fim dela. Foi enterrado num domingo abafado. Por anos não cantei a música cantada no funeral. Um dia voltei a cantar. Em nenhum dia as pessoas pararam de morrer. Mas eu parei de chorar pela morte.

Os gregos ensinaram que há uma Bela Morte para todo herói que o foi em vida, muito mais do que no ato de sua morte. Heróis que deixaram às Musas nobres histórias para cantar. Capitão Herculano entregou trabalho a Memória. Domingos Montagner pra mim, é o cangaceiro Robin Hood que Thelma Guedes inventou em Cordel Encantado. A novela mais bonita que eu assisti. Amei o sertão mesmo antes de conhecê-lo e amei ainda mais quando ele foi lúdico e colorido. Naquele ano fui ao extremo norte de Minas e vi a terra vermelha, o cacto na beira da estrada, a casa de barro, os bichos magros, a caveira de boi. Domingos juntou em si o Lampião com o arqueiro de Sherwood. Foi um personagem marcante e generoso. Dentro de um cenário muito caro para mim. Não acompanhava a carreira dele, não sei ser fã. Fui tocado pela obra dele. A presença dele naquele ambiente fez do todo um marco. A obra tem esse poder. O artista tem essa capacidade.

Não há aqui questão de vida imitando arte, isso não faz nenhum sentido. É admiração, espanto e empatia. É a brevidade da vida, o gostar do trabalho de um cara, de achar que ele deve ser bacana quando não é um personagem, de saber que há familiares e amigos que hoje estão sofrendo o que eu também já sofri. Toda morte é uma agressão, um susto, um des-sopro. Desencarnar deve doer. Não esperava que meu pai morresse. Nunca encontrei com Domingos Montagner num shopping da Zona Sul. Do meu pai era filho, do Domingos era espectador. Não é a mesma dor. É outra dor, meu pai doeu por não mais ver, Domingos me dói por seus 3 filhos, sua esposa. A morte são muitas dores, cada uma em cada um, nenhuma mensurável ou substituível.

O luto um dia pode terminar, a falta não. Não há substitutos, o que há é a vida continuando. Domingos morreu, meu pai morreu, meu avô morreu, eles não vivem mais. Não acredito em retornos. A memória de suas vidas nos acompanhará. Orei pelos filhos e pela esposa. Acredito que há um consolo para os enlutados. Não há respostas diante da morte, por isso, não faço mais perguntas a ela. Eu sei que um dia ela acabará, eu sei que ela está derrotada.