Sobre gratidão

Temos por gratidão um sentimento esfuziante. Mas gratidão não é só um sentimento, aliás, é menos que tudo um sentimento.

Agradecer é reconhecer no outro a não obrigação do dar. É reconhecer em mim a falta de créditos pelo recebido. Gratidão não é troca, não é obrigação, é delicadeza. É decisão tomada desapegada de sentimentos. Gratidão é ação. Extrapola o texto, transcende as palavras, chega às atitudes. Afinal, de que vale um texto se não para ser vivido? De que nos serviu a literatura se somos os mesmos leitores e os mesmos viventes?

A gratidão torna-me agente de uma ação diferente da que tinha. Faz-me outro, ensina-me a ser melhor. Ser grato é ser melhor. É ser humilde sem ser humilhado. É ser passarinho num mundo de passarão. Modificar-se pela singeleza. Singeleza porque o gesto é pequeno, a ação é grandiosa.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.¹

Exercemos hoje a gratidão tendo como alvo o nosso Sagrado, porque entendemos que fomos alcançados por uma dádiva que não leva em conta o que de bom ou de ruim somos capazes de fazer.

Somos gratos. Ativamente gratos!

¹Ricardo Reis.


Texto escrito originalmente para formatura da Faculdade de Letras da UFRJ 2011/1.

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