Cinco verdades de George Orwell sobre a extrema pobreza

Que George Orwell é o profeta do totalitarismo todo mundo sabe. O que nem todo mundo conhece, no entanto, é que além de profeta, Orwell gastava o seu talento em algumas aventuras pessoais ousadas. É o caso da obra Na Pior em Paris e Londres (Companhia das Letras, 2006), onde o impávido escritor mergulha nos tecidos da pobreza nas capitais inglesas e francesas do século passado. Em seu livro, uma mistura entre um romance e um documentário literário, o autor fala de temas afetos à miséria: fome, exploração, vida nas ruas e violência.

Orwell é quase sempre referenciado como um escritor a frente de seu tempo. Infelizmente, ele, de fato, adiantou alguma ou outra verdade de nossa vida moderna, especialmente baseado no regime Soviético. O ponto, nesta obra, é o contrário: não se trata de uma visão de futuro, mas uma observação de uma realidade estática, que não parece ter mudado muito em quase um século. A miséria descrita por Orwell parece encontrar ecos nas sociedades atuais, mesmo tendo sido publicado originalmente em 1933. Vejam o que Orwell (ainda) tem a nos dizer:

1- Pobreza

É muitíssimo curioso o primeiro contato com a pobreza. Você pensou tanto sobre ela — é uma coisa que temeu a vida inteira, uma coisa que sabia que ia acontecer com você mais cedo ou mais tarde, e ainda assim é tudo tão completa e prosaicamente diferente. Você achava que iria ser bem simples; é extraordinariamente complicado. Você achava que ia ser terrível; é apenas imundo e chato. A primeira coisa que você descobre é a baixeza peculiar da pobreza, as mudanças que ela impõe, a complicada mesquinhez, o desnudamento de si mesmo.

2- Fome

A fome nos reduz a uma condição de estupidez e falta de energia total, mais parecida com os efeitos da gripe do que qualquer outra coisa. É como se nos transformássemos numa água-viva ou como se nosso sangue tivesse sido todo retirado e substituído por água morna.

3- Liberdade

Poucas pessoas cultas têm menos de (digamos) quatrocentas libras esterlinas por ano e, naturalmente, ficam ao lado dos ricos porque imaginam que qualquer liberdade concedida aos pobres é uma ameaça a sua própria liberdade. Prevendo alguma sinistra utopia marxista como alternativa, o homem instruído prefere manter as coisas como estão. É possível que ele não goste muito de seus companheiros ricos, mas supõe que até o mais vulgar deles é menos inimigo de seus prazeres, mais seu tipo de gente, do que os pobres, e que é melhor defendê-los. É esse medo de uma plebe supostamente perigosa que faz com que quase todas as pessoas inteligentes tenham opiniões conservadoras.

4- Luta de Classes

A massa dos ricos e a dos pobres diferenciam-se por suas rendas e nada mais, e o milionário típico é apenas o lavador de pratos típico com roupa nova. Troquem0se os lugares e adivinhem quem é o juiz e quem é o ladrão. Quem quer que tenha se misturado em termos iguais com os pobres sabe disso muito bem. Mas o problema é que as pessoas inteligentes e cultas, exatamente aquelas que deveriam ter opiniões liberais, jamais se misturam com os pobres. Pois o que a maioria das pessoas instruídas sabe sobre pobreza?

5- Vida nas Ruas

O dinheiro se transformou na grande prova de virtude. Nessa prova, os mendigos são reprovados e, por isso são desprezados. Se fosse possível ganhar dez libras por semana mendigando, a mendicância se transformaria imediatamente numa profissão respeitável. Observado de forma realista, um mendigo é apenas um homem de negócios que ganha a vida do jeito que dá, como outros homens de negócios. Não vendeu sua honra — não mais do que a maioria das pessoas modernas. Ele apenas cometeu o erro de escolher um negócio no qual é impossível enriquecer.

Trocando uma ou outra expressão aqui e ali, o texto poderia ter sido escrito hoje, não é? Melhor ainda, poderia ser de qualquer lúcido autor brasileiro sobre nossas enormes desigualdades. O retrato antropológico da miséria de Orwell permanece intocado, e suas percepções das trocas de "gentilezas" entre ricos e pobres parecem remontar o cenário atual.

Teóricos como Matt Ridley (O Otimista Racional) e Steve Pinker (Os anjos bons da nossa natureza) argumentam, com motivos sólidos inclusive, que a humanidade tem passado pelo melhor momento de sua história. É até possível que estejam certos, o que torna a sobrevivência do relato de Orwell ainda mais assustadora. Seria a pobreza condição existencial da humanidade?

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